Marcadores

terça-feira, 4 de abril de 2017

Não falar

       
      Esses dias atrás tive uma experiência nova diante de uma afonia: eu só podia ouvir, não podia falar. A obrigação de ouvir me fez perceber algumas coisas que talvez, com uma fala perfeita, não tivesse reparado.
        Uma delas é que, no exercício da comunicação, não falar pode ser muito bom. Não necessariamente é importante falar quando se está com alguém do lado ou quando se está compartilhando um momento legal. Entendi que sentir pode ser mais legal do que falar. E mesmo quando eu tinha vontade de falar, e não podia, os outros entendiam completamente o que eu dizia, mesmo sem dizer nada.
        Não falar pareceu uma vantagem imensa, em alguns pontos. Não fazer aquele comentário indelicado diante da piada boba, não cuspir marimbondos em que não merecia. Entendi que, ao não falar, escutava mais profundamente meus próprios pensamentos, sentimentos. E pude perceber também como meus pensamentos falam, meu Deus!
        Mas, foi tão interessante não dar força a eles. Por que preciso sempre verbalizar tudo o que penso? Não dá para, simplesmente, não falar? E assim, aconteceu.
        Também entendi que não falar pode ser muito útil para administrar a própria vida. O quanto de energia se coloca na fala? Comecei a entender que posso ser muito seletiva naquilo que vou dizer. E me mostrou que reagir verbalmente pode ser uma imensa perda de tempo porque é preciso ter força para sustentar um ponto de vista.
        Não quero dizer que fazer uma desconstrução da sua fala é um exercício para todos os dias. Não. Mas, às vezes é preciso silenciar a fala para entender o coração, para se compreender em outro ritmo.
        Por fim, gostei muito de recuperar minha voz. Mas, também percebi que prefiro ouvir minhas risadas, do que proferir palavras aos ventos. É como se ouvir internamente. E como é bom!



0 comentários:

Postar um comentário