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quarta-feira, 1 de março de 2017

Acolher


          Acolher é uma daquelas palavras que trazem uma sensação muito boa quando dita. Já pensou nos sentimentos felizes sentidos quando se é acolhido por alguém? Como amor? Conforto? Realização?
        Ser acolhido é um desejo de todas as pessoas. Em algum momento você vai desejar ser acolhido, receber uma atenção num momento mais introspectivo, de dúvida, urgência ou de alegria. Mas, você já notou que em boa parte dos discursos não existe o acolhimento?
        Talvez a pressa, o desejo de expressar as necessidades mais urgentes tem feito dos diálogos verdadeiros monólogos. Ou seja, há muitos discursos soltos sem que os sentimentos expressos, tanto por quem fala quanto por quem ouve, possam ser tocados.
        Dentro dessa correria insana “imposta” pelo ritmo de vida, muitas pessoas parecem repetir ecos desesperados como: “não tenho tempo” ou “tenho que fazer isso”. Essas são daquelas frases possíveis de serem ouvidas desde o elevador até numa reunião mais séria. E isso é um reflexo de que não se está prestando atenção aos próprios sentimentos. Presta-se muita atenção ao que deve ser feito, mas não no como você está se sentindo hoje.
        É interessante observar que uma das maiores redes sociais da atualidade faz essa pergunta e muita gente responde. Uma sugestão: por que você não faz essa pergunta a si mesmo? Como eu estou hoje? Prestar atenção daquilo que passa em seu coração é um dos primeiros passos para acolher o outro porque o acolhimento passa, antes de tudo, por acolher a si mesmo. Se você não sabe como está se sentindo, dificilmente saberá lidar com a necessidade do outro.
        Sei que esse é um texto introspectivo que vai exigir um pouco mais de profundidade, mas convido você, leitor(a) a debater esse tema, a fundo. Mais do que observar como você se sente naquele dia é interessante perceber como se sente diante do todo: como reage em determinada situação x? Como pensa quando alguém apresenta um argumento mais difícil como, por exemplo, uma demonstração de raiva?
        Acolher é uma ação que propicia ajudar o outro independentemente do contexto e que permite receber o outro como ele é, sem julgamentos. Então, quando alguém está tendo um acesso de raiva é mais fácil julgá-lo dizendo “nossa, como a pessoa é brava”, sem entender o contexto que levou a pessoa a agir assim. Entendo que, dificilmente, alguém terá sangue frio para fazer essa reflexão imediatamente quando alguém está num acesso de raiva. Mas, (e sempre há um porém), é possível ouvir. Acolher não é apenas abraçar e, infelizmente, é facilmente confundido com passar a mão na cabeça. No entanto, você já pensou o quanto seria interessante quando você tivesse um acesso de raiva ou tristeza alguém não julgar seu comportamento e simplesmente ouví-lo? (ou ainda perguntar: por que você está com raiva?)
        Você já tentou acalmar alguém apenas ouvindo-o? Creio que em boa parte do tempo as pessoas estão tentando dar o exemplo do que a pessoa deveria fazer em vez de perceber o que o outro está sentindo. Não à toa, muitas pessoas desistem de falar sobre aquilo que sentem, em alguns casos ampliando ainda mais as barreiras entre uma pessoa e outra.
        Dar o exemplo não é acolher,  mas mostrar um caminho sobre o que você acha que o outro deva fazer em determinada situação (e ás vezes é se exibir mesmo). Mas, tem horas em que uma pessoa não precisa de caminhos. Precisa de acolhimento e a sensibilidade se faz necessária para perceber isso. É preciso respeito ao momento do outro, de seu tempo, de suas escolhas. Não estou dizendo que se tem que valorizar, por exemplo, o pessimismo de um colega de trabalho. Mas, em vez de criar a resistência, já buscou ouví-lo uma única vez, sem criar julgamentos?
        A falta do acolhimento vem de inúmeras projeções dogmáticas da sociedade em que quando alguém fala de seu sentimento, ou quando se pensa nas emoções, é considerado uma pessoa mais fraca. Outro dogma é que as pessoas precisam estar sempre fortes e superar todos seus desafios. Numa sociedade competitiva e pautada na imagem, falar sobre aquilo que sente ou que lhe incomoda se tornou meio fora da casinha. Então, de modo geral, quando alguém fala de uma dificuldade sua, por exemplo, sempre há aqueles que vão apontar o dedo dizendo o que o outro deva fazer ou o que você deveria ser. Cabe a cada um avaliar se consegue resolver uma situação dessa ou daquela maneira e, particularmente, acredito que não cabe a ninguém julgar o quanto a pessoa precisa ser forte nesse ou naquele ponto. 
        E para finalizar, penso que acolher é uma maneira de diminuir os ruídos, conflitos, de demonstrar compaixão e carinho e de amenizar situações que estão mais latentes. Acolher pode ser uma maneira de dar e receber amor, de buscar um caminho mais suave para tudo o que se vive, sem criar uma expectativa sobre como você deseja que os outros sejam, apenas aceitando-os em sua totalidade, ainda que você desejasse que fossem de maneira diferente. Quando puder, acolha com todo o seu coração sem medo, sem julgamentos, apenas permita receber o outro. Talvez esse gesto simples possa ser transformador.




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