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sábado, 26 de março de 2016

Preguiça de competição



Ser irmã do meio trouxe um conforto ao longo da minha jovem vida. Nem sempre foi assim. Quando eu era criança, acredita que ser a irmã do meio não era algo tão vantajoso. Eu não era a mais velha, nem a mais nova, então, portanto, eu não tinha um título.
Desde muito cedo entendi que ou eu brigava para aparecer e competir com minhas irmãs para ser alguém ou eu poderia ser simplesmente alguém diferente, sem um título mesmo. Rssssss.
Não posso dizer que nunca houve brigas entre eu e minhas irmãs, afinal, minha mãe conta que tinha horas que a casa dela mais parecia Irã, Iraque e Israel. Rsssssss. Mas, depois de certo tempo, já mais crescidinha, entendi que realmente eu não queria competir. Eu queria ser eu mesma!
E, então, segui um caminho diferente do que minhas irmãs seguiram. Morei em cidades diferentes das delas, segui uma carreira diferente das delas, tive namorados diferentes dos delas. E, com o passar do tempo, percebi a beleza em ser eu mesma e fiquei cada vez mais com preguiça da competição! Passei a admirar ainda mais minhas irmãs e me sentia mais autêntica sendo eu mesma.
A analogia da irmã do meio ajuda a compreender as pequenas e grandes competições ao longo do dia. E, quando levado esse cenário para o ambiente do trabalho, fica ainda mais fácil de perceber que muitos profissionais ainda não abandonaram o medo de não ser notados. É evidente que os ambientes profissionais não se parecem em nada com a casa da gente. Não se pode ser autêntico, na verdade. Mas, é possível ser bom profissional. E para chegar a isso, alguns acham que é preciso apagar a luz do outro para acender a sua. Em outras palavras, competir.
Não é à toa que existe competição no ambiente de trabalho. Muitas vezes elas são incentivadas por chefes imaturos que mais se parecem com mães inseguras brigando pelo amor dos seus filhos, como quem diz “vou amar mais, quem me amar mais”.
Mas, também há aquelas pessoas que não conseguem administrar o olhar grande em relação ao talento alheio, mesmo tendo um ambiente de trabalho bacana e seguro. Nem todo mundo fica contente com um colega competente e logo, pronto, começa a competição.
Tem horas que em que essa competição se torna explícita, verbalizada, mas tem horas em que o jogo é sujo, cheio de artimanhas, pequenas e grandes estratégias para nocautear o adversário.
Mas, quem sai perdendo, na verdade, é aquele que compete. Dois motivos me levam a acreditar nisso. O primeiro deles é que quando uma pessoa é insegura é notada por mais pessoas como tal. Em geral, o inseguro vai usar da artimanha do “apagar a luz”. E ele não busca “apagar a luz” apenas de quem tem mais talento do que ele. Mas, também do quem tem menos, afinal, é inseguro. Quem não trabalha sua insegurança ao longo da vida se torna um profissional frustrado porque passa mais tempo olhando para o outro do que para si. Quando vê, o tempo já passou e o profissional não se desenvolveu.
 O segundo motivo é que quanto mais uma pessoa compete para “aparecer” no trabalho, mais ela dá luz a seu competidor. Falo isso com certa propriedade, pois passei 15 anos em grandes empresas e percebi o seguinte fenômeno: “se você for competir com alguém, vai enfatizar à pessoa com quem compete pelo simples fato de trazer à tona os talentos daquele que você aponta o dedo”. Mesmo quando se tenta diminuir alguém, quando o profissional é humano e talentoso tende a se sair muito bem. E vai impressionar quem está a seu redor.
Portanto, a competição entre profissionais deveria não só ser evitada, mas motivo de advertência. Afinal, o mundo é grande o suficiente para cada um mostrar um pouquinho do seu talento, sem medo de ser você mesmo. Ainda que você não seja o irmão do meio. 

p.s: já pensou se todo mundo parasse de competir para ajudar o seu colega, de verdade e de coração, como seria o mundo?


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