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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Setembro chuvoso

        


      Rita entra em sua confeitaria preferida. É o dia de comer aquele doce delicioso que reserva mais para o final da semana. Como um presente.
        Senta-se numa mesa próximo ao aquecedor. Está um frio atípico para essa época do ano. E, então, sem cair na tentação de ficar olhando o celular, permite-se apenas a observar o movimento. A chuva cai forte lá fora, não há porque ter pressa.
        Numa passada rápida de olhos, começa a observar quem estava ao redor enquanto aguarda sua torta de morangos. A confeitaria não estava muito cheia, mas havia famílias, casais, amigos, uma senhora com um cachorrinho, duas crianças correndo por entre as mesas. Dá um suspiro deixando-se envolver pelo ambiente aconchegante.
        Estica-se na cadeira, tentando ajeitar-se melhor. O doce chega. Pronto, agora é só degustar. Mas, ao fazer o exercício da observação daquele local, parece ter se desligado um pouco de seu apetite. Seus olhos, num primeiro momento, admiram o que as pessoas fazem. Algumas se cumprimentam ao chegar, trocando beijos e afetos. Existe uma conversa inicial entre aqueles que estavam na confeitaria, mas, depois de certo tempo, jovens, idosos, crianças, moços bonitos e mocinhas sorridentes pareciam entrar em outro estado de espírito.
        Os olhares começam a perder a conexão entre si, os corpos se afastavam e, então, as pessoas demonstram estar conectadas apenas em si mesmas. Escondem-se atrás do menu da confeitaria ou do celular. Alguns tiravam revistas da bolsa.
        De repente, o silêncio toma conta do lugar. Apenas as xícaras, talhes e pratos (além da máquina de expresso) agora, parecem conversar entre si. E, então, Rita, dá sua primeira mordida em seu doce. É capaz de ouvir sua respiração e o mastigar de seus dentes, engolindo devagarzinho para que ninguém também o escute.
        “Não, não é o sabor do doce que faz as pessoas paralisarem”, pensa! É a necessidade de não conexão. Numa reflexão breve, Rita percebe que, em algumas mesas, é mais interessante estar conectada virtualmente do que pessoalmente. Alguns até tiram foto daquilo que estavam comendo. Mas, percebe que os diálogos não fluíam. E, então, ficou ali comendo vagarosamente para continuar observando o que viria depois.
        Nada aconteceu. Aliás, aconteceu o que comumente tem ocorrido: pessoas focadas em algo que não é a situação atual. Menos conexões entre pessoas, menos trocas verdadeiras. “E se as pessoas souberem o que sou de verdade e não apenas o que demonstro nas minhas redes? Melhor não me relacionar verdadeiramente”, pensou Rita como quem pudesse ler o pensamento das pessoas que estavam na mesa ao lado.
     Os clientes que estavam lá não sabiam, mas estavam se relacionando com Rita, ainda que a recíproca não fosse verdadeira. Rita saiu da confeitaria com a reflexão sobre as conexões e ficou pensativa também porque o mundo virtual parece ser mais interessante em alguns momentos do que o real. “Talvez seja apenas o setembro chuvoso”, sorriu Rita com seus próprios pensamentos. “Talvez”.


Rainy September

        Rita enters in her favorite bakery. It’s the day of eating that delicious candy she reserves for the end of the week. As a gift.
        She sits at a table near the heater. Is an atypical cold for this time of year. And then, without falling into the temptation to stare at the phone, allows herself only to observe the movement. The rain beats down out there, there's no need to rush.
        A quick eye last, begin to notice who was around while waiting for her strawberry pie. The bakery wasn’t very crowded, but there were families, couples, friends, a lady with a little dog, two children running around the tables. Sighs involving herself in the cozy atmosphere.
        Stretches in the chair, trying to sit better. The candy arrives. Okay, now just enjoy. But when she did the observation exercise of that place, it seems to have turned off some of her appetite. Her eyes, at first, admire what people do. Some of them greet on arrival, exchanging kisses and affection. There is a starter conversation among those who were in the bakery, but after a while, young, old, children, beautiful boys and smiling girls seemed to get into another state of mind.
        The eyes begin to lose their connection to each other, the bodies moved away and then people demostrate being connected only with themselves. They hide behind the bakery menu or cellphone. Some took magazines out the bag.
        Suddenly, the silence takes all over the place. Only the cups, nicks and dishes (besides the espresso machine) now it seem to talk to each other. And then Rita gives her first bite on her candy. She can hear her breathing and chewing of her teeth, swallowing slowly so no one can listen.
        "No, it’s not the candy taste that paralyzes people," Think! It’s the need of no connection. In a brief reflection, Rita realizes that at some tables, is more interesting to be connected virtually than in person. Some even take picture of what they were eating. But she realizes dialogues didn’t flow. And then she stays there eating slowly to keep watching what would come next.
        Nothing happened. By the way, happened what has commonly occurred: people focused on something that is not the current situation. Fewer connections between people, less true exchanges. "And what if people discover what I really am and not just what I show in my network? Better don’t relate truly", thought Rita as one who could read the thoughts of those who were at the next table.
      People who were there didn’t know, but they were in a relationship with Rita, although the reciprocal wasn’t true.
        Rita came out of the bakery with the reflection on the connections and was also thoughtful in why the virtual world seems to be more interesting at sometimes than the real. "Maybe it's just the rainy September", Rita smiled with her own thoughts. "Maybe".

Translator:

Bruna Gonçalves. 23 anos. Redatora publicitária e marketing digital. Faço freelas de conteúdo e de tradução. Pode me encontrar também no blog Não Sei se é Fome ou Tédio ou por e-mail: brunalvgoncalves@gmail.com


Bruna Gonçalves. 23 years old. Copywriter and digital marketing. Freelances in copywriting and translation. You can find me in Não Sei se é Fome ou Tédio’s blog or by e-mail: brunalvgoncalves@gmail.com


1 comentários:

Infelizmente parece que as pessoas estão perdendo o prazer de uma conversa real... A tecnologia é muito boa, mas não há nada mais prazeroso do que ter atenção, ser ouvido, ouvir o outro, ter esse afeto um com o outro. Estamos perdendo tempo precioso olhando as notificações... Bem chato isso.

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