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quinta-feira, 26 de março de 2015

Você é você e o outro é o outro




           Quando comecei a estudar a comunicação assertiva, levei um susto. Tive que rever posturas sobre os relacionamentos, como as amizades e o amor. Foram anos de análises e estudos sobre o posicionamento diante das situações e do desejo do outro.
       Nessa busca, encontrei pessoas maravilhosas, que me mostraram caminhos do que é o amor verdadeiro e sobre o limite entre eu e o outro, ampliando minha assertividade.
        Encontrei também muita “pedrada”, porque, infelizmente, enquanto não são mudadas posturas diante das situações mais difíceis da vida, elas continuam a existir.
        E, foi por causa dessas situações que exercitei inúmeras vezes (e continuo exercitando), o olhar sobre o desejo alheio. Uma das primeiras coisas que aprendi foi: “não assuma a responsabilidade pelo sentimento do outro. Cabe a cada um fazer essa análise”
        Existia uma dualidade nessa questão porque se é preciso ouvir o sentimento do outro para que haja empatia, como não vou me sentir responsável se alguém ficou triste com um “não” que eu falei?
        Eis um fato que a empatia não é sinônimo de agradar. Empatia é a capacidade de ouvir o sentimento do outro sim mas, posicionando-se diante desta pessoa com uma opinião que você gostaria de dar. Isso não quer dizer que é preciso concordar com o outro (ou se sentir responsável pelos sentimentos que o outro terá ao você falar alguma coisa). Ou ainda, ser empático não significa que você tenha que ceder aos desejos do outro para que não se sinta culpado(a).    
        Dizer sim ou dizer não a um pedido alheio é sempre um desafio, é verdade! Principalmente, para aqueles que amamos mais. Mas, cabe a cada um avaliar como se sente diante das situações (de um sim ou de um não).
        E é, muitas vezes, nesse ponto que as relações estremecem. Sentir-se responsável pelo sentimento dos outros e ter medo de dizer não (ou de discordar), acredito ser, praticamente, um risco de vida. Você acaba não apenas assumindo uma vida que não é sua, mas fazendo muitas coisas que não deseja, sem trazer qualquer qualidade a sua vida. A troco de quê? De um suposto “afeto” ou atenção que alguém vai lhe dar? Eu chamo isso de barganha do amor!
        Observei ainda, na prática, que quando você se posiciona em não ceder aos desejos dos outros (ou permite-se não se sentir responsável pelo sentimento dos outros, principalmente numa negativa), existem aqueles que vão sim usar de retaliação, maledicência e até violência. Em algumas relações me posicionei com uma opinião que não era o que a pessoa desejava que eu respondesse. A resposta, em alguns casos, chegou a limites, como a perseguição daqueles a quem “ousei” (rssss) não ceder aos seus desejos. Quando se tem reações assim, é um momento de questionar: você quer mesmo manter relações com pessoas que usam os sentimentos delas como ameaça ou manipulação? Não seria esse comportamento o egoísmo?
        No livro Seja assertivo, de Vera Martins, a autora afirma que quando se passa a ser assertivo (veja, ser assertivo não é apenas não se sentir responsável pelos sentimentos dos outros, mas uma série de escolhas e posicionamentos diante dos relacionamentos. Sugiro ler o livro todo, é fantástico!), é possível despertar uma série de reações do tipo zanga, hostilidade, mágoa, chantagem emocional, manipulação, lamentos, vingança, pedidos de desculpas excessivos. Isso porque as pessoas podem não estar preparadas para o seu novo “posicionamento” diante da imposição dos sentimentos delas a você.
        Acredito que uma relação amorosa (seja ela de amizade, pais e filhos, relação a dois) envolve uma palavrinha que deve ser praticada e pensada o tempo todo: respeito. Se você não quer fazer algo e alguém fica chateado, somente porque você não vai ceder a tal desejo (ou quer que você se sinta culpado pelo desejo não cumprido – em outras palavras: quer que você se sinta responsável pelo sentimento alheio), não está respeitando o seu tempo ou espaço ou o seu “ser”. E mais, não está sendo empático com você!
        Isso não quer dizer que não se deva ceder nas relações. É evidente que em qualquer relação terá que se abrir mão de alguma coisa e encontrar o bom senso, para que a relação continue existindo. Seja ir ao bar que você não gosta muito para ver seus amigos até gastar um pouquinho mais com aquela viagem que seu namorado tanto sonhou. Você sabe o seu termômetro do “quanto” pode ceder.
        Mas, se sentir responsável pelo sentimento do outro e ter o receio de dizer não, não vai te levar a ter relacionamentos transparentes (e talvez nem saudáveis). Afinal, quem lhe ama, lhe aceita como é. Sei que essa frase parece utópica porque, fala a verdade, quem aceita efetivamente os outros como são?
       Particularmente, acredito que, apesar da utopia, as relações construídas com base no respeito (e no amor, claro) podem comunicar o melhor de cada ser humano. Mas, se ainda assim, numa relação você se sentir responsável pelo sentimento alheio, porque não concorda com algo, lembre-se de que você é você e o outro é o outro. Afinal, entender seus próprios sentimentos é um exercício que cada um deva (ou deveria) fazer em benefício próprio e não esperar que os outros façam por si.

p.s: agora, se você agrediu alguém ou feriu de alguma forma, fisicamente ou verbalmente, é evidente que você é sim responsável pelo sentimento do outro.





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