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quinta-feira, 12 de março de 2015

Bom dia, pra quem?



        Ligo para o 0800 de uma operadora de telefonia. A moça me diz:“bom dia, senhora, sou fulana, como posso ajudá-la?”. Então, eu digo:”olá, fulana, obrigada por me atender. Você está bem?”
        “Por que pergunta, senhora?” – diz a moça.
        “Porque quero saber se você está bem”, justifico, com certa estranheza (do tipo, estou me preocupando, você não está percebendo).      
        “Sim, estou” – responde a atendente, meio ríspida.
       Então, uma pausa de cerca de 30 segundos acontece depois dessa resposta. Fiquei esperando a reação da moça do outro lado do telefone, que não conseguiu entender um ato tão simples, um “como vai?”. E, quando acreditei que a atendente tivesse desligado, estranhando minha “atenção” dada, ela falou: “ninguém pergunta como estou, desculpa”.
        Respirei fundo e disse que entendia aquela situação. Uma onda de compaixão, mas também de tristeza, tomou conta de mim. Então propus a ela: “que tal começarmos tudo de novo, assim você pode dar outra resposta”?
        “A senhora vai desligar?” – pergunta a moça assustada, num misto também de sentimentos, como quem está com algum receio, mas também com certa alegria de ter sentido que alguém se preocupa com ela, ainda que não a conheça.
        “Não, querida. Vou recomeçar”. Sem dar chances para que ela não me deixasse promover um pequeno ato de bem estar no meu dia (que era, na verdade, para ela), disse: “olá, fulana. Que bom conversar contigo, como você está?”. E, então, a atendente, agora alegre, disse: “eu vou bem e a senhora?” – respondeu. “Eu estou bem. E tenho certeza de que você pode me ajudar,” respondi.
        Não preciso dizer que o papo foi ótimo. Ela me ajudou em tudo o que podia e sim, tirei todas as minhas dúvidas e ainda respondi ao questionário final, avaliando o seu trabalho.
        Fiquei pensando com meus botões: por que diálogos tão simples parecem tão difíceis em um mundo repleto de possibilidades de comunicação?
        Por que as pessoas parecem estar prontas para o pior? Ou aguardando um desfecho negativo? Imagino que a profissão de atendente não deva ser nada fácil. Mas, a vida de ninguém é fácil. Converse com um motorista de ônibus e histórias interessantíssimas irão aparecer.
        Não existe o pior em uma profissão. Existem ofícios. Tem gente que lida muito bem com sangue, como os cirurgiões. Muita gente acharia um absurdo trabalhar com sangue (como eu, por exemplo).
        Mas, lidar com gente tem sempre um “porém”. É como lidar com inúmeros sentimentos que borbulham em uma pessoa e que irão interagir com os inúmeros sentimentos que borbulham no outro ser. E, apesar das chances cabalísticas de um diálogo, muitas vezes, beirar à estranheza vez ou outra, é de se convir de que não é tão difícil de realizar uma simples conversa como “olá, como vai?”.
        E, é aí que observo, com certa tristeza, que se as pessoas estão tão reativas assim é porque seus corações estão cheios de sentimentos ruins. Ou você acha que uma pessoa alegre não vai entender um “como vai” como algo receptivo e agradável?
        Não tenho teorias para defender sobre isso. Apenas, observo, na expectativa de, sempre que possível, poder trocar as “reações” carregadas em conversas mais leves. Porque dialogar também é permitir fluir o que melhor há dentro de si.



10 comentários:

Alloyse: Bom dia pra começar... Texto muito pertinente na atualidade. É, seria cômico, se não fosse tragicômico. Então, é bom dia pra começar... a mudar, né?

Como diz você, Reinaldo: Ô! Rssssss. Bom dia, querido. E bom dia a todos!

Vi-me nas suas palavras, Alloyse, infelizmente estou no "reativo", principalmente quando recebo ligações para tratar de TELEFONE e/ou CARTÃO DE CRÉDITO ou EMPRÉSTIMO... Senti-me mal, por, neste instante colocar-me no lugar do profissional que liga para mim. Minha defesa: é que estão a me oferecer um produto que eu não pedi, não quero e a por vezes são insistentes na oferta. Por isso, prefiro ser direto (curto e grosso) para me livrar daquela situação indigesta...

Klau, tudo bem?
Você pode bloquear as ligações de telemarketing. Basta procurar no procon do seu estado, via internet mesmo, o número para bloqueio. Vou dar um exemplo nesse serviço oferecido pelo Procon de São Paulo. Mas, há em outros estados.

https://www.procon.sp.gov.br/BloqueioTelef/


Se ainda assim, as companhias continuarem ligando, você pode acionar o número 0800-411512 (não sei se funciona para todos os estados, pois foi o Procon paraná quem forneceu).

Abraços.

Gostei professora! Ótimo texto!

Esses meus alunos queridos. Obrigada, Ricardo. Seja bem-vindo!

Alloyse, Perfeito, ahh como eu queria que muitos parassem para ler esse texto... Trabalho com TI e atendo usuários, mesmo quando não se tem problema é difícil ver diálogos saudáveis como esse, então fica um clima ruim dos dois lados. Se mesmo durante um problema termos esse dialogo bom e empatia com o outro, viveríamos menos estressado e varia bem há ambos.

Ah, com certeza, meu querido. Brinco que "só há salvação" na tolerância. Desculpa responder apenas agora, Edmar. Estava numa semana de cursos. Volte sempre!

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