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quinta-feira, 19 de março de 2015

Apontar o dedo




            Olá, leitor.
        Hoje convido você a fazer uma reflexão sobre as relações no ambiente de trabalho e também sobre aquele velho hábito de apontar o dedo para os outros. Conversando com a psicóloga Márcia Maito, pude observar que esse é um assunto complexo, porém revelador. O que há por trás dos ambientes nocivos permeados pela agressividade e pelos apontamentos, muitas vezes, desgastantes?
        O texto abaixo é da psicóloga que, gentilmente, trouxe essa reflexão para nós. E após ele, segue um bate papo entre nós.

        Minha experiência de trabalho em equipes multiprofissionais me permite diversos questionamentos acerca de como se constroem as relações interpessoais em um ambiente profissional, onde circulam profissionais de diversas áreas de atuação e conhecimento, mas nesse momento destaco, dentre tantas possíveis interrogações, a comunicação, as dificuldades, os equívocos e principalmente a violência que permeiam, de forma explícita ou velada, a comunicação nesse ambiente específico.
        Abordar esse tema é a tentativa de encontrar uma proposta de intervenção, mas também encontrar a possibilidade de estar inserida e participar de um grupo de forma mais tranqüila, com motivação, encontrar o equilíbrio para comunicar sem agredir, pois a comunicação é imprescindível nas relações interpessoais e nem sempre o que precisa ser dito é agradável, tanto para quem comunica quanto para quem recebe, mas isso não implica que esta deva ser feita de forma agressiva e inconsequente.
        A pergunta inicial é: o que acontece para tornar a comunicação tão prejudicada em determinados ambientes? A violência que se presentifica nas relações não é nada além do que a violência que existe em cada sujeito, que pode se manifestar de diversas formas, inclusive em um grupo específico, onde tais sentimentos podem ser compartilhados e expressos de forma intensa. Em um grupo, as relações de poder, que podem estar associadas a diversos aspectos, seja a diferença imposta por um cargo, ou a diferença imposta por uma condição financeira, e até mesmo a diferença presente nas áreas de atuação e de saber, podem ser vivenciadas de forma agressiva e esse é um motivador para as diversas dificuldades de comunicação.
        Seguindo essa linha de pensamento é importante então questionar o que pertence a nós, sujeitos, que é capaz de tornar nossas relações tão tóxicas. Essa é uma interrogação que deveria ser respondida por cada um, pois, apesar de identificada no coletivo, implica nossa subjetividade. O que me incomoda? O que me torna violento? O que me impede de falar? Ou o que me impele a falar? São perguntas muitas vezes negligenciadas por nós mesmos, fazendo com que o colega de trabalho seja o alvo de sentimentos e reações, assim direcionamos ao outro nossa agressividade, que pode ser o que aparece para esconder uma insegurança, um problema pessoal, uma questão subjetiva de longa data sendo repetida, e assim por diante.
        O caminho que se trilha neste texto é pensar que partindo dessa elaboração é possível propor um novo olhar quando problemas de comunicação se tornam presentes, considerando a possibilidade de uma reflexão sobre a forma de se comunicar e a reação que se tem diante de determinadas situações.

        Márcia, como é possível ter essa percepção de que, ao olhar para o outro, o que uma pessoa possa se incomodar talvez seja um problema dele e que, muitas vezes, é apontado como um problema do outro?
        Essa, provavelmente, é a questão mais importante de todo o contexto, pois para se ter essa percepção é imprescindível um olhar para si, faz-se necessário acalmar um tanto as emoções e permitir uma reflexão, levantar uma série de questionamentos: o que no outro, ou nessa relação me incomoda tanto? Qual é o sentimento mais evidente fruto desse contato? E por que me incomoda? São alguns exemplos para permitir de início um afastamento da situação que causa conflito e o inicio de uma tentativa de separação do que pertence a mim e do que pertence ao outro, permitindo, como resultado dessa reflexão, identificar de forma mais clara a problemática existente em uma relação, se essa separação for suficiente, os sentimentos e reações são amenizados. Mas, se permanece o mal estar, o incômodo, este pode ser o indicativo de que há algo mais, para além do que o outro representa com suas opiniões e ações. Pode indicar um conteúdo subjetivo, que sofre os efeitos de um mecanismo de defesa, a projeção, onde identificamos fora o que é muito difícil e conflitante de ser percebido como um conteúdo pessoal e referente a minha história em particular.
       
        Observo nos discursos comuns, principalmente nas redes sociais, uma agressividade e falta de respeito em relação às opiniões alheias. Caracterizo isso como preconceito, quando alguém não “considera” o argumento do outro e que, portanto, não merece a atenção ou respeito. Você acredita que as pessoas estão mais preconceituosas em relação às opiniões alheias?
        Não acredito que seja uma questão de mais preconceito, acredito que o preconceito sempre existiu nessa condição de crueldade, acredito que o ser humano sempre foi assim, inflado de sentimentos, de supostas verdades que se tenta fazer o outro engolir caso haja discordância inicial. A lida com a diferença é sempre um conflito, pois de início a diferença nos causa uma perda, da referência, da possibilidade de identificação e consequentemente da empatia. Na minha opinião, o que a rede social faz nesse contexto atual é dar voz a tudo isso, mas é uma voz protegida, pois o que se tem no contexto virtual é uma ilusão de maior integração e de maior liberdade de expressão, uma ilusão porque não é exercida dessa forma nos contatos mais pessoais, geralmente o preconceito, o ódio que transborda em textos na internet não se concretiza dessa forma em um discurso ao vivo. Mas o ser humano, quando em um grupo com o qual se identifica, pode ser tão cruel e preconceituoso quanto um individuo é na rede social. 

        E essa situação não seria um paradoxo em relação ao mundo tão diverso (e tão cheio de discursos sobre diversidade) em que vivemos hoje?
        Parece uma contradição, não é mesmo? Quanto mais se fala em diferença e em respeito aparece na mesma proporção discursos alienados e alienantes na tentativa de padronizar. Quanto mais se tem abertura para o diálogo mais proliferam discursos de ódio e preconceito que sem muitos argumentos fecham a possibilidade de diálogo. Penso que esse é um processo de amadurecimento, na verdade espero que seja, pois assim vejo como possível suportar tamanha agressividade. Assim como faz parte de um amadurecer individual, onde temos opiniões e comportamentos que após alguns anos são frutos de questionamentos e mudanças, espero que em relação a sociedade seja possível fazer essa construção também, assim, é importante não desistir da comunicação, do diálogo, e sempre que possível questionar esse processo, daquela forma acima descrita, para que seja possível perceber a violência que muitas vezes se instala nas relações e que essa reflexão permita investir na qualidade das relações, mesmo com as diferenças, que nunca deixarão de existir, mas que não precisam ser motivos de embate.

        Acho que é importante deixar claro que a agressividade, muitas vezes, vem distorcida em uma voz doce e agradável, porém maquiavélica e cheia de julgamentos. Você poderia apresentar alguns tipos de agressões verbais, que não apenas aquela em que, primeiramente, imaginamos (como o gritar, por exemplo)?
        A destituição é um exemplo claro, alguém que julga o outro inferior, que destitui a pessoa ou seu trabalho constantemente, é uma forma bem agressiva de relação e que muitas vezes não vem com gritos, vem geralmente velada de conselho, observação. Eu já presenciei inúmeras formas de agressão em equipes multiprofissionais onde há uma dificuldade de integração, assim o que se cria é um clima de competição, quem sabe mais, faz mais ou melhor, assim quando alguém apresenta algum problema, dificuldade, insegurança, o que é comum, pois em algum momento todos nós vivenciamos esses sentimentos, esse clima institucional produz os seus sintomas, profissionais que se consideram fracassados, profissionais que vivem para julgar o trabalho do outro, pois se sentem avaliados o tempo todo, e assim por diante. Isso tudo, na minha opinião, é muito opressor e representa uma grande violência, que vem de forma muito velada, silenciosa.
       

Márcia, gostaria de agradecer sua disponibilidade de ter compartilhado não apenas seus conhecimentos, como também  suas reflexões. Foram engrandecedoras. Tenho certeza de que para o leitor também.



Marcia Maito
Psicanalista, investindo e apostando no trabalho em clínico desde 2005 e há 5 anos dedicada ao desafio de trabalhar em equipes multiprofissionais.
CRP 08/10732









             

3 comentários:

Alloyse, parabéns pela entrevista. E Marcia, parabéns pela lucidez de suas conclusões - sobretudo a última.

Reinaldo, obrigada pelo carinho de sempre. Estive dando treinamento, na última semana. Só tive tempo, hoje, de olhar seu comentário. Aquele abraço.

Reinaldo, obrigada pelo carinho de sempre. Estive dando treinamento, na última semana. Só tive tempo, hoje, de olhar seu comentário. Aquele abraço.

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