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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sob o ar rarefeito

        Há os que dizem que o ano começa agora. Que, finalmente, o ritmo de trabalho, afazeres, escola dos filhos, tudo retornaria a partir da quinta-feira pós carnaval.
        Acho curiosa essa afirmação, pois sei que (com exceção da escola dos pequenos) muita gente está na labuta há muito tempo. Empresários, por exemplo, estão sempre trabalhando, ainda que tirem umas férias.
        Já faz certo tempo que observo a relação das pessoas com o tempo, o trabalho e o prazer. Sim, porque se é necessário entender um feriado como um desejo esperado é porque existe algum“porém” nessa relação toda.
        Essa semana li uma manchete de um jornal francês que afirmava que o carnaval é aquele momento em que o brasileiro se esquece de todos os escândalos e problemas (que não são poucos, vale reforçar!) para celebrar a vida. O que me chamou a atenção foi a parte do “celebrar a vida”. Por que não se pode celebrar a vida durante o ano todo, fragmentados em pequenos e grandes momentos? Por que tem que ser no carnaval que muita gente afirma que “solta o grito”, que veste a fantasia para liberar a animação? Não seria possível compartilhar essa alegria em outros ou mais momentos do ano?
        Não venho aqui fazer uma análise sociológica da situação atual de nosso país, afinal, essa tem sido a pauta de discussões da atualidade na mídia e nos movimentos em geral. Muito menos venho dizer que os brasileiros não merecem feriados. Nada disso! O descanso é muito bem vindo.
        Questiono apenas o seguinte: o que faz as pessoas pensarem que um feriado pode aliviar todas as tensões vividas durante um ano? Um amigo me contou, esses dias, que ao tentar marcar cursos para janeiro, o diretor de uma instituição disse a esse meu amigo que não adianta marcar nada para o mês de janeiro e fevereiro porque os funcionários não trabalham direito naqueles meses. Fiquei assustada com a afirmação e ainda comentei com o amigo: nossa, mas eu ministrei cursos em janeiro. Não acho que meus alunos e clientes estão menos aptos ou menos dispostos. Pelo contrário!
        Veja como é curioso o eco do “não adianta fazer antes do carnaval.”  E é aí que entra a relação trabalho, tempo e prazer. Não necessariamente nessa ordem. Observe, leitor, que normalmente as pessoas acompanham o calendário para fazer tudo. O ritmo de vida, inevitavelmente, é cronometrado pelo relógio, ditado pelas obrigações (geralmente de trabalho). E o prazer, onde fica? O que lhe dá prazer, já pensou sobre isso? E por que o prazer tem que ser estabelecido depois do trabalho e cronometrado por um tempo?
        Sei que parecem irresponsabilidades os questionamentos acima, mas posso garantir que ajudam a manter o foco do real desejo da vida de cada um de nós. Claro que todo mundo tem louça pra lavar, tem que trabalhar e atender clientes (no meu caso) e ainda ter que lidar com todas as outras situações do dia a dia, como o trânsito, por exemplo. Mas, por que não se pode estabelecer as coisas prazerosas como prioritárias?
Quando se trabalha com aquilo que realmente gosta, a sensação de trabalho pesado (como um fardo) desaparece (por mais que se trabalhe). Quando se elege o prazer como prioridade, a noção de tempo desaparece. Então, não estaria a sociedade (me incluo nisso) seguindo um fluxo sob o ar rarefeito? Explico: se não se pode (por qualquer motivo) fazer o que se gosta (em especial o trabalho), a ponto de parecer um fardo e precisar de feriados para descansar, estabelecendo a noção de tempo apenas cronometrado pelo calendário e relógios, sem a sensação de prazer, não se estaria vivendo com pouco ar?E é assim que você, leitor, quer viver o ano todo?
        Sei que lancei muitos questionamentos juntos. Mas, viver sob o ar rarefeito não vai fazer com que você consiga perceber o tempo nem desejar o trabalho nem entender o prazer.
        Que tal, então, comunicar algo melhor para você mesmo em 2015? Ainda é tempo de fazer essa análise, afinal, há os que dizem que o ano começa agora.








10 comentários:

Excelente questionamentos, também não gosto de ouvir que o ano começa depois do carnaval, aparenta ser algo de nós brasileiros mesmo que gostamos de jogar as coisas adiante como desculpa... Uma vez li algo e por incrível você também comentou em seu blog sobre como ter tempo, algo que todos reclamam e concordo novamente com o que você questionou, priorizar, se não colocarmos o prazer como uma das prioridades raramente vamos conseguir fazer, e também não podemos esperar 5 dias para ter 2 dias de prazer, na minha opinião fazer o que não se gosta é perca de tempo e fora que não vai ser um trabalho feito com vontade... De resultado sai algo sem qualidade e de mau gosto.

Edmar, você está bem? Andava sumido! Rssss. Faço de minha suas palavras. Grande abraço.

Corrigindo: faço de suas minhas palavras. Rssssss. Desculpa.

Seus textos são ótimos para uma pausa e análise! Parabéns!

Olá Alloyse, Estou bem, aproveitei para tirar uns dias de folga e desconectar também.. rsr.. Agora estou de volta (Mas foi folga planejada para acabar agora mesmo, rsr) Brincadeira, Ferias \o/

Seja sempre bem-vindo, Edmar.
Guilherme, muitíssimo obrigada por suas doces palavras. Gratidão!
Mas, sinta-se à vontade para mandar sugestões de assuntos, para trazer novos questionamentos e pontos de vista. A comunicação é uma ferramenta poderosa!
Abraços.

Alloyse, perfeito! O tempo de 'celebrar a vida' é o todo tempo. Até porque, até onde sabemos, o tempo - além de relativo - é apenas este aqui: o que estamos vivendo. Há os que têm o dom de colocar prazer em tudo que fazem - tenho sérias suspeitas que você é uma dessas pessoas. Pra quem acha que não nasceu assim privilegiado sugiro um pequenino passo: não limitar o prazer e a alegria apenas para as datas convencionadas no calendário. O carnaval, por exemplo.

Reinaldo, querido. Obrigada por seu doce comentário. Doce como sempre!
Na verdade, acredito que até nos momentos em que a vida nos tira um pouco de fôlego é possível transformar as sensações ruins em momentos de prazer, seja com um sorriso de uma criança na rua ou uma viagem à Paris. Nada mal, não? Rsssss. Aquele abraço.

Alloyse, je suis Paris depuis que je étais un jeune enfant! (rrss). Beijos.

kkkkkkkkk. Esse Reinaldo me faz rir!

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