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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Lorena e a estrela

        Era uma vez uma menina chamada Lorena. De cabelo ruivo, bochecha rosada e sardinhas no rosto, adorava brincar. Era muito viva. E pulava, Deus, como pulava! Pulava para conversar com os adultos, para falar com os amiguinhos. Ela não conseguia ficar quieta.
        Lorena tinha um cãozinho, o Estrela, que ganhou quando tinha apenas 4 anos. Mas, isso já faz muito tempo, porque Lorena já tem oito agora. E, apesar de muito esperta, a menina não sabia lidar muito bem com os números. Certa vez, voltou para casa cabisbaixa com um boletim na mão. Decepcionada com a nota em matemática, comentou com sua mãe (esticando os bracinhos para entregar o boletim): “mãe, eu sou um fracasso”.
        Desconsolada, passou o jantar quieta, enquanto seu irmão Miguel, um ano mais velho, brincava de fazer uma alavanca com o garfo, para atirar grãos de milho no copo da irmã. Ela estava tão chateada, que nem prestou atenção na provocação do irmão. A mãe, vendo que a menina já estava triste, olhou pro marido como quem vai falar algo. O marido, então, sussurrou: “conta, é melhor contar”.
        “Crianças, aconteceu uma coisa com o Estrela. Ele não vai mais poder ficar aqui em casa. Ele foi levado para um canil, no céu.  Miguel saiu da mesa, chorando. Cruzou os braços e disse: não é verdade! Lorena suspirou, baixou os olhinhos e se sentindo ainda mais derrotada apenas saiu da mesa.
        Entrou em seu quarto e bateu a porta. Debruçada sobre a janela, olhou para o céu, tentando encontrar qualquer coisa que acalmasse seu coração. Não conseguia nem chorar. Lorena, então, pensou: “ah, se eu morasse naquela estrela! E se lá fosse um lugar onde tudo desse certo? Eu só queria que tudo acabasse bem.” E, então, ela percebeu que a estrela começou a se aproximar, vagarosamente.




        Lorena não podia acreditar que a estrela que observava de sua janela, estava mesmo se aproximando. A menina ficou paralisada enquanto percebia a estrela chegar cada vez mais perto. Atônita, Lorena parece ter ficado fora de órbita por alguns minutos. Quando se deu conta, a estrela estava na sua frente. E, para a surpresa dela, era do mesmo tamanho que Lorena.
        A estrela, então, estendeu os braços para a menina, pegando em uma de suas mãos. E foi então que...
        ... num segundo, Lorena estava em mundo muito distante, o Estrelar, o planeta das estrelas. Um lugar onde tudo brilhava. Tudo era bonito. Havia natureza, como na Terra. Havia cidades, como se conhece hoje. Mas, ao contrário do que ocorre na Terra, em Estrelar tudo dava certo. Os estrelares também tinham outro diferencial: as estrelinhas não podem falar. Elas se comunicam soltando estrelinhas pelo coração, emitindo um som engraçado. Mas, elas não conseguem falar como os humanos falam.
        Percebendo que Lorena não estava entendendo aquela situação, a estrela escreveu num papel, com canetinha colorida, a seguinte frase: “Lorena, nós nos comunicamos em estrelês. Sabemos que você não sabe essa língua porque só existe em nosso planeta. Você não queria estar em um lugar onde tudo dá certo? Você está nesse lugar.”
        Lorena não podia acreditar que estava em outro planeta. Se beliscou para ver se era verdade mesmo. Então, perguntou: “e o que eu faço agora?”
        A estrela voltou a escrever: “o que você quiser fazer. Podemos te levar para conhecer o lugar onde tudo dá certo. Mas, a gente gostaria que você falasse mais coisas pra gente, contasse histórias, porque a maneira como vocês se comunicam é muito bonita.”
        “É mesmo?” – falou em voz alta. “Nossa, nunca tinha pensado sobre isso”, comentou Lorena. E, enquanto falava e a estrela escrevia, a menina foi chamando a atenção de milhares de estrelinhas que estavam passando por uma rua qualquer de Estrelar.
        Lorena e a estrela (que se denominava estrela-guia) caminharam horas por aquele planeta que era muito parecido com a Terra. Além da maneira de se comunicar, outra exceção eram os meios de locomoção que por lá não existiam, afinal, estrelares voam e podem se transferir de um lugar para outro apenas desejando que isso aconteça. A menina passou o dia inteiro contando histórias da Terra. Quanto mais as estrelinhas gostavam de suas histórias, mais estrelas saíam de seus coraçõezinhos.
        E, então, Lorena percebeu que parte das histórias que contou era linda e a outra metade era de histórias tristes. Foi, então que perguntou para a estrela-guia: “como vocês conseguiram transformar o Estrelar em um lugar em que tudo dá certo”?
        A estrela então escreveu: “nós desejamos muito que tudo desse certo sempre. Desejamos o amor acima de qualquer situação, amor acima da dor, das tristezas, do ressentimento. E, de tanto desejar, viramos estrelas. Mas, já moramos em outros planetas antes de virar estrela.”
        “Quer dizer, que vocês já foram humanos”? – perguntou a menina. “Nem todos”, escreveu a estrela guia. “Alguns foram animais, outros foram anjinhos da guarda e outros foram humanos. Na verdade, pode morar em Estrelar qualquer um que deseje que tudo dê certo e acreditar nisso.”
        “Será que é para cá que o Estrela veio?” – perguntou Lorena. A estrela-guia, então, escreveu: “Lorena, estive sempre ao seu lado, querida. Apenas agora virei estrelinha. Eu sou o Estrela.”
        Lorena ficou emocionada. Abraçou aquela estrelinha e quanto mais abraçava e sorria mais estrelinhas iam saindo do coração da estrela-guia (ou do Estrela, se preferir). “Agora, você tem que voltar para sua casa”, escreveu a estrela-guia. E acrescentou: “além de te ver, queria mostrar para as outras estrelinhas como é bonita a maneira como vocês se comunicam na Terra. Faça bom uso dela, afinal é pela comunicação que vocês podem demonstrar o amor. E lembre-se: deseje e acredite que tudo dê certo e isso vai acontecer. Há os que lutarão contra e os que acharão que você está louca. Não preste atenção nisso.”
        A menina relutou: “não, eu quero ficar aqui com você pra sempre”. A estrela-guia, então escreveu: “não, querida. Esse é apenas um desejo seu. Se acreditar, você um dia poderá ficar aqui pra sempre. Por enquanto, estarei te guiando de longe. E toda vez que quiser conversar comigo, me chame e eu irei.”
        E, então, num piscar de olhos, Lorena estava de volta ao seu quarto. Aos poucos, voltou a ouvir e a sentir tudo o que estava acontecendo em sua volta. Não percebeu que alguém batia na porta.
        Abriu-a correndo. “Filha, estou há mais de dez minutos batendo na porta, fiquei preocupada, pois sei que está chateada” – falou a mãe.
        Lorena pensou: “nossa, só dez minutos? Para mim, passaram-se horas.” E então disse: “não se preocupe, mamãe. Se você acreditar que tudo dará certo, assim será.”






5 comentários:

Alloyse, poesia pura. Uma metáfora de dois dos instrumentos mais poderosos desenvolvidos pelo ser humano: a linguagem e a comunicação Para o bem ou para o mal. Afinal, somos todos 'stardust' (poeira das estrelas).

Afinal, somos todos stardusts!! Bem isso, querido. Muito obrigada por seu comentário. Generoso como sempre! Namastê!

Generoso? Não. Verdadeiro como os fatos do Universo. Namasté Alloyse!

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