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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Uma conversa com Callas

     
      Entramos em um café (daqueles centenários) e sentamos na mesa do canto. Olhamos o “menu” vagarosamente, estudando o cardápio, aproveitando o momento de êxtase. Foi um dia corrido, mas delicioso. Andamos por várias horas, sem parar, entre um museu e outro, aproveitando a folga dos estudos, até que pausamos para o café.
        E, ainda com o cardápio em mãos, Dani disse: “Paris é mesmo linda! Ainda mais na primavera!” Eu disse, brincando: “Dani, Paris é linda em qualquer época. Mas, concordo contigo, o dia está especialmente lindo, amiga”.
        Apesar de ser cinco da tarde, abro o jornal do dia, que ainda não tinha lido. O ano, 1972. Paris não era mais uma festa! Pelo contrário: o fervilhar político deu um ar tênue ao aspecto mais romântico da cidade Luz. Nada que tirasse o humor de duas mocinhas que resolveram se aventurar fora do país, num intercâmbio (uma palavra pouco mencionada naquele Brasil oprimido pela ditadura) para realização de um mestrado. Foi tão difícil conseguir essas bolsas, mas nos esforçamos muito!
        Entre uma passada e outra de olhos no cardápio, desfoquei para observar as outras mesas. Apenas para contemplar! Na mesa mais próxima, estava uma mulher com um chapéu grande e “vestida” de um batom tão vermelho que chamou minha atenção. Ela me vê. Seus olhos enormes parecem paralisar os meus. Observo-a, apenas. Linda, com movimentos clássicos, sem pressa, leva a xícara à boca deixando marcar com batom a porcelana chinesa do café francês.
        Viro-me para Dani e digo: “que engraçado, a mulher se parece tanto com Maria Callas”. Não demora muito e, então, aquela Diva usando um chapéu se levanta, deixando mostrar também seu lindo vestido, que vai um pouco abaixo dos joelhos. Comenta algo com um rapaz e aponta para nossa mesa.
        O homem, então, dirige-se até nós. Nesse momento, digo: “Dani, o que será que está acontecendo? Será que atrapalhamos a mulher, só de olhar para ela?”
        E, então, o rapaz nos convida para nos sentarmos junto com a senhora do chapéu. Achei tudo aquilo muito estranho, mas resolvi “arriscar”. Ao chegar perto dela, cumprimentei-a com aperto de mão firme, me apresentando no meu francês não tão fluente como gostaria. “Alloyse”, disse eu. “Daniele”, disse minha amiga. A bela mulher não se apresentou, apenas perguntou se queríamos nos sentar com ela, afinal, “estávamos olhando para ela”, disse.
        E então foi que, ainda meio que sem jeito, havíamos comentado que éramos estudantes e que estávamos há pouco tempo na cidade e que achávamos tudo lindo. Dani é fonoaudióloga e veio estudar canto lírico, expliquei. Eu sou escritora, nas horas vagas, claro. Estudo antropologia. Nada melhor que Paris para fazer isso, comentei. E a senhora?
        “Eu povoo o imaginário de muita gente”, disse a mulher exuberante.
        “Entendi. Você é famosa, então, perguntei.”
      “A fama não é bem o que as pessoas pensam o que é. A fama é uma grande ilusão. Mas, claro, tem o seu lado bom”, disse a senhora.
        “Como o quê?”, perguntei.
        “Ah, como saborear tudo o que a vida pode lhe oferecer, sem culpa, sem medo, sem pressa, sem dar satisfações”, acrescentou.
        Nesse momento, pensei: “essa mulher deve ser muito rica”. Mas, antes que meu pré-julgamento saísse pela boca, ela disse: “mas, há muito mais sofrimento na ilusão do que felicidade. Iludir-se com o coração pode criar feridas profundas, tão tristes que, às vezes, é difícil removê-las.”  
        Dani, então, disse: “bom, nesse caso, vamos lembrar do lado bom da fama. O que a senhora faz?”
        “Eu loto teatros”, disse ela, sorrindo com o canto da boca, ainda marcada pelo batom vermelho.
        “Você é Maria Callas, não é?” Eu tinha que perguntar.
        E, então, ela apenas consentiu com a cabeça. Olhei para Dani, que olhou para mim e ficamos mudas. Coloquei a xícara de chá na mesa antes que a derrubasse no chão.
        “Você sabe o quanto admiramos seu trabalho”, enfatizei, com ênfase mesmo!
        Num gesto de timidez, ela apenas baixou o olhar. E quando saí do meu estado de choque (e a Dani também), resolvemos, então, perder a vergonha e conversar, de verdade, com Maria Callas.
        Dani comentou: você é mesmo Anna Cecília Sofia Kalogeropoulos? “Não estou acreditando”, afirmou ela. Dani sabia quase tudo sobre sua vida. Era uma de suas cantoras líricas preferidas.
        Vamos abrir parênteses antes de retomarmos a conversa com Callas: a “Casta Diva” estudou canto no conservatório de Atenas, onde permaneceu até 1945. Com apenas 15 anos, estreou no canto lírico na Ópera de Atenas e alcançou o sucesso com a ópera La Gioconda, de Ponchielli, que interpretou em 1947, em Verona, na Itália. É considerada a maior musa que já existiu na Ópera. Isso porque produziu uma importante discografia, que a fez brilhar nos cenários mais famosos do mundo. É também dona de uma qualidade vocal ímpar, que certifica os fatores imprescindíveis para um cantor lírico: domínio da técnica e dom.
        Naquele pequeno universo de uma mesa (sim, porque diante de Maria Callas, quem se importa com os croissants?), havia muito pra se conversar. Na verdade, não sabíamos muito bem o que fazer diante de Callas, que tão gentilmente havia nos recebido.
        Como entendia mais sobre canto lírico, Dani puxou assunto. Lembrou ela: a voz para música erudita exige empenho, dedicação e longos anos de estudo. É preciso consciência vocal, postural e respiratória. Todo esse conjunto na senhora é tamanho, tanto que pode ser considerada uma cantora lírica excepcional. Muitas pessoas ainda se lembram de suas lendárias apresentações, como na Norma, de Bellini:






        Callas sorriu. “Foi lindo, o Opera Garnier estava sempre lotado. Minha voz estava muito aquecida naquela época” – comentou a Diva.
        “Eu não quero parecer fanática, mas sua voz é incrível”, lembrei-a. Todos ainda se lembram de sua interpretação de Mio Bambino Caro:





        Dani, então, comentou: “é verdade. Suas interpretações ficaram marcadas. Aliás, a dedicação aliada à força para interpretar seguramente lhe fizeram alcançar o patamar dos grandes artistas do século.” Um exemplo disso, comentou Dani, é o concerto em que se apresentou no Convent Garden, em Londres, em 1962:





        Callas deu uma grande gargalhada, soltando a cabeça para trás. “Cantar é praticar. Pratiquei muito e me dediquei. Mas, com certeza esses foram anos de ouro.” É evidente que a Diva tinha conhecimento da sua grandeza. Não se mostrava modesta, mas também não era arrogante. Ela apenas sabia do que era capaz.
        Quando pergunto como se sente atualmente (depois de um escandaloso casamento com o milionário Onassis e também da dura relação com os teatros - não cheguei a mencionar isso, mas era sabido que Callas tinha temperamento difícil, a ponto de abandonar alguns teatros e de ser expulsa de outros), a Diva deixa escapar sua alegria de ter vivido uma vida intensa, de luxo, beleza e, acima de tudo, talento.
        “Hoje, estou em paz comigo mesma e aceito quem eu sou, com meus limites, com minhas vantagens. Tomei minhas próprias decisões, cometi alguns erros, mas tenho muita sorte. Eu me considero uma pessoa, muito, mas muito sortuda, porque eu vim do nada e aqui estou.”
        Gostaríamos de ficar horas ali conversando com a Diva, mas o chofer a chama. “Sra. Callas, o carro está pronto”.  Olho pra Dani como quem acorda de um sonho maravilhoso. “Ainda tenho tantas coisas a dizer e a perguntar à senhora Callas”, digo a ela tentando fazê-la ficar. Antes de sair, estende as mãos para nós e complementa:
        “A vida é assim, mocinhas. Vocês irão amar, viver intensamente, mas o importante é continuarem a ser vocês mesmas”. 
         Observamos uma mulher elegante, dentro de um vestido azul marinho e um chapéu preto desaparecer pela porta do café. Uma mulher única, numa voz única!








p.s: Claro que essa história é fictícia, afinal, esse encontro seria impossível. Nasci três anos depois da morte de Maria Callas e Danielle, oito anos. Já que o destino não nos uniu (mas, me apresentou a Dani, uma amiga que mora em meu coração), tivemos o capricho de reinventar o destino. Abrimos nosso coração e convidamos Maria Callas para papear com a gente. Não é que ela aceitou o convite?

Uma breve apresentação sobre Daniele Almeida:
 Fonoaudióloga pela Universidade Tuiuti do Paraná (2004), Aperfeiçoamento em Voz no Centro de Estudos da Voz - CEV-SP.(2008) Consultora na RICTV Record-Paraná. (2008 - atual). Diretora da Expressiva-Fonoaudiologia - Voz e Comunicação (2013 - atual). 

Para os apaixonados por Callas:

Aves Marias:


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Algumas entrevistas de Maria Callas:










Curiosidades:






2 comentários:

Obrigada, querido! Bravo à Callas! Bravo às belezas da vida!

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