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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O prazo é a inspiração

        Você senta em frente ao computador e checa o celular. Depois, olha, novamente, o computador. Abre uma aba para navegar um pouco e ler sobre outros assuntos. Abre várias páginas.
        O interfone toca. É a pizza. Você pensa: “não, tenho que me focar!” Aí, você lembra que se esqueceu de pedir alguma coisa para beber. Desce até a mercearia e compra um mate.
        Volta. Senta-se em frente ao computador.  Nenhuma ideia vem à cabeça. Então, você se lembra de que precisa pedir a um amigo para comprar os ingressos para o cinema.
        Senta-se novamente em frente ao computador. Ainda nenhuma ideia vem à cabeça. Aflito, olha no relógio. O prazo está acabando e você precisa escrever. Respira fundo.
        Levanta-se para lavar o rosto. Vê que os colegas de trabalho já estão indo embora. “Já é tarde”, você pensa. Respira fundo novamente.
        Digita algumas palavras no teclado, mas não lhe parece ser uma ideia concreta. Apaga tudo!
        A página em branco com um sinal do cursor parado aumenta a sensação de que algo está errado. “Por que não consigo escrever?”
        Alguém toca a companhia. É a última entrega do dia. Uma correspondência que nem é para você. Aí pensa: “pronto, o mínimo de raciocínio se foi.”
        Senta-se em frente ao computador. Coloca a mão na cabeça. E pensa: “isso só acontece comigo.”
        Por muitas vezes desejei que o ato de escrever fosse uma cena bucólica, sentada em um grande gramado verde, num dia de sol, com um caderno antigo numa mão e na outra a caneta tinteiro. Em meio às flores, o cheiro da lavanda vem de todos os lados. Amparada por uma sombrinha de linho, então, a inspiração viria. Sem bloqueios, sem medos ou sentimentos estranhos. Quem não gostaria?
        Talvez Jane Austen tenha vivido essa cena, duzentos anos atrás. E, com certeza, estar perto da natureza em uma situação tão ideal para a elevação do pensamento e criatividade talvez tivesse ajudado uma das mulheres mais célebres da literatura a se tornar um clássico.
        É importante observar, no entanto que, assim como o ocorre em todo o mundo, na Inglaterra de Austen também existe o inverno (sempre existiram as estações). Imagino que, duzentos anos atrás, sem internet nem tv a cabo deveria ser meio decepcionante ficar dentro de uma casa durante alguns meses esperando a neve ir embora. Portanto, apesar de não ter sido íntima de Jane (mas, adoraria), tenho certeza de que ela abusou de uma estratégia que todos que precisam escrever (seja um livro, um blog ou um relatório bobo) deveriam tentar: a imaginação.
        Que tal, simplesmente, se transpor para um lugar onde gostaria de estar? Se você precisa escrever algo que está na sua cabeça já imaginou encontrar um cenário para se sintonizar consigo mesmo? Acredito que esse seja um passo valioso. Não convivi com os grandes escritores, mas tenho absoluta certeza de que eles se permitiam a criar os cenários mais lindos possíveis no momento da escrita.
        Bom, mas na época de Jane Austen, por exemplo, não havia prazo. Eu não tenho tanta certeza assim. Mas, vamos supor que não! De qualquer forma, um passo já foi dado para o desenvolvimento de sua escrita. Agora, é encaixar esse cenário lindo dentro do tempo que se tem para escrever.
        Existe uma frase de alguém conhecido (que só eu não conheço), talvez Millor Fernandes, que seria mais ou menos assim: “o prazo é a maior inspiração.” Duvidava seriamente dela até que escrever passou a ser um negócio, literalmente.
        Quando se precisa escrever é fundamental ter a intenção de que se vai escrever. Não abrir outras abas do computador, não navegar pelo Facebook. Nada disso vai lhe ajudar. A inspiração está dentro de você. Mas, para encontrá-la, talvez uma música dê certo. Talvez criar, mentalmente, um cenário inspirador ajude. Mas, que tal simplesmente deixar vir? Sem medo do que vai sair? Sem receio do que vão pensar? Sem procrastinar por qualquer outro motivo?
Claro, algumas ferramentas ajudam na hora de escrever: ler livros, revistas e tudo o que vier pela frente faz enriquecer o vocabulário e o conteúdo. Amplia a cultura e o conhecimento de vida. E quanto mais bagagem se tem de vida, mais facilmente será sua escrita.
        Mas, se apesar de tudo isso sua escrita não fluir, escreva mesmo assim. Porque o seu prazo, meu amigo, vai estourar. Então, é melhor tentar. Além disso, quando se vê que é possível escrever dentro de um prazo é como passar de fase: você está apto a escrever sob pressão, mais vezes. 
        E, quem sabe, da próxima vez que você escrever, não chame a Jane Austen para um café? Ela vai admirar a sua inspiração com um prazo estabelecido!








1 comentários:

As vezes acho que escrever é como sair da prisão. Você se sente pequeno, apertado, preso. Aí vem o alvará de soltura e você desanda a escrever. O cadeado abre, começa a sentir o ar livre. Os pulmões respiram novamente. Está livre. Está escrito.

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