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Treinamento para falar bem na mídia, palestras, reuniões e vídeo aulas.

Comunicação como ferramenta

Conheça os benefícios de uma comunicação mais eficiente.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O tempo a seu favor


        Imagine-se na seguinte cena: em um longo campo de trigo, você caminha com uma enxada em mãos. Vestindo roupas sobrepostas feitas de algodão e linho, percebe que começar a chover. Distante de casa lembra-se de que deixou as crianças brincando com objetos feitos de pano. Você não tem como avisá-las. Corre contra a chuva por mais de vinte minutos, perdendo o fôlego e preocupado(a) com o que pode ter acontecido a elas. Os trovões, junto à tempestade, trazem-lhe uma angústia ainda maior. O ano é 1645. Não há comunicação e não há o que se possa fazer, além de correr.
        Uma cena que traz aflição a qualquer pessoa. Se a situação fosse na atualidade você até poderia sair correndo, mas com certeza usaria o celular para estabelecer uma comunicação mais rápida.
        Assim como o telefone móvel, todas as demais plataformas de comunicação são benefícios que ajudam a aproximar pessoas e estabelecer uma comunicação mais urgente. Seria incrível se a comunicação, em pleno século XXI, não angustiasse tanto quanto correr contra uma tempestade em 1645.
        Mas, a enxurrada de informações que se vive hoje parece inundar o cérebro até dos mais famintos por novidades. O autor Richard Wurman afirmou, em um dos seus livros que “uma edição do The New York Times em um dia da semana contém mais informação do que o comum dos mortais poderia receber durante toda a vida na Inglaterra do século XVII”. Essa pode ser uma explicação para que você, seus parentes, amigos e vizinhos parecem se sentir sufocados com as inúmeras plataformas de comunicação e a velocidade com que as informações aparecem.
        Como lidar com tudo isso, então?
        Administrar o que é realmente importante é o primeiro passo para separar as informações necessárias das tentações que pipocam de todos os cantos, em forma de “novidades”. Você precisa mesmo abrir o Facebook antes de abrir seus olhos na cama, assim que acorda? É necessário ler os e-mails enquanto toma o café? Estabelecer uma ordem para o fluxo de informações é como coloca-las em gavetinhas. Elas vão estar lá, mas você deve “pegá-las” somente quando for necessário.
        Por isso, “o importante” é o quesito mais relevante a ser destacado na “seleção natural das informações”. E disciplina é palavra de ordem para auxiliar nesse processo.
        Escreva em uma folha (à mão ou digite na sua agenda) como será a sua semana. Feito isso, separe (na agenda mesmo) um tempo, todos os dias, para acessar o Facebook (e escreva quanto tempo você irá passar nesta rede social); estabeleça o tempo e os dias da semana para ver o Linkedin (e participar de grupos, se esse for seu propósito); tire momentos do dia para interagir no Whatsapp e, de nenhuma maneira, faça seu trabalho acessando esse aplicativo (ou qualquer outro). Assim como essas redes, as demais também precisam “constar na agenda”. Chato, né? Mas, não se engane! De outra forma, as redes sociais parecem muito mais tentadoras do que você imagina. E aí, seu dia, simplesmente, se foi e você não desenvolveu seu trabalho.
        Alguns aplicativos ajudam nessa missão: eles “travam” suas redes sociais durante um período estabelecido por você mesmo (veja exemplos no rodapé).
        Outra maneira de sair da enxurrada de informações é desligar o celular. É evidente que essa plataforma é fundamental para seu trabalho e sua vida. Mas, seja honesto! Você precisa mesmo deixar o celular ligado durante aquela reunião? Ou o dia todo no trabalho? Estabelecer alguns horários em que não se utilizará o celular também auxilia no processo de “limpeza de informações”. Fica mais fácil de trabalhar quando o telefone móvel não lhe desfoca naquilo que estava concentrado. Se for urgente, a sua família poderá ligar no telefone da empresa a qual trabalha.
        No entanto, se sua vida financeira depende do telefone é possível direcionar a chamada para centrais que funcionam como verdadeiras “secretárias”. Elas anotam quem ligou e passam o recado, por torpedo, para quem as contratou. As empresas de telefonia móvel também oferecem serviços para “administração das chamadas”. Basta acessar sua operadora e investigar qual é o melhor serviço para você ou sua empresa. Assim como desligar as notificações dos celulares (toda vez que receber torpedo, e-mail ou whatsapp) ajuda a não desviar do trabalho.
        É preciso também delimitar o tempo para as conferências ou ligações via SKYPE/HANGOUT. Não é porque essas ferramentas oferecem planos gratuitos que você vai “arrastar” o assunto. Faça uma lista do que precisa ser conversado nessas “reuniões”. Apresente-se e seja gentil com seu interlocutor. No entanto, se foque à lista de assuntos e traga seu “parceiro(a)” de conversa de volta ao foco toda vez que dispersar. 
        E, por último (apesar de parecer que deveria ter sido o primeiro tópico) separe, para o final do dia, as leituras de tudo aquilo que quer ver na internet. Quando você chega em casa já está cansado. Portanto, é nesse momento que seu cérebro, intuitivamente, irá escolher o que mais lhe agrada.
        Ufa! Com esses passos simples é possível fazer tudo o que é preciso e ainda não se “atrochar” de novidades que, honestamente, talvez não fizessem tanta diferença no seu dia.
        Pensando bem, correr contra uma chuva por vinte minutos não deve ser tão ruim assim. Difícil mesmo (pelo menos me parece) é separar o joio do trigo. Não é mesmo?


Curiosidades:
Serviços de atendimento ao telefone:
http://www.atendemos.com.br/site/index.php

Serviços que bloqueiam distrações:


O tempo que o brasileiro passa na internet:

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Uma conversa com Callas

     
      Entramos em um café (daqueles centenários) e sentamos na mesa do canto. Olhamos o “menu” vagarosamente, estudando o cardápio, aproveitando o momento de êxtase. Foi um dia corrido, mas delicioso. Andamos por várias horas, sem parar, entre um museu e outro, aproveitando a folga dos estudos, até que pausamos para o café.
        E, ainda com o cardápio em mãos, Dani disse: “Paris é mesmo linda! Ainda mais na primavera!” Eu disse, brincando: “Dani, Paris é linda em qualquer época. Mas, concordo contigo, o dia está especialmente lindo, amiga”.
        Apesar de ser cinco da tarde, abro o jornal do dia, que ainda não tinha lido. O ano, 1972. Paris não era mais uma festa! Pelo contrário: o fervilhar político deu um ar tênue ao aspecto mais romântico da cidade Luz. Nada que tirasse o humor de duas mocinhas que resolveram se aventurar fora do país, num intercâmbio (uma palavra pouco mencionada naquele Brasil oprimido pela ditadura) para realização de um mestrado. Foi tão difícil conseguir essas bolsas, mas nos esforçamos muito!
        Entre uma passada e outra de olhos no cardápio, desfoquei para observar as outras mesas. Apenas para contemplar! Na mesa mais próxima, estava uma mulher com um chapéu grande e “vestida” de um batom tão vermelho que chamou minha atenção. Ela me vê. Seus olhos enormes parecem paralisar os meus. Observo-a, apenas. Linda, com movimentos clássicos, sem pressa, leva a xícara à boca deixando marcar com batom a porcelana chinesa do café francês.
        Viro-me para Dani e digo: “que engraçado, a mulher se parece tanto com Maria Callas”. Não demora muito e, então, aquela Diva usando um chapéu se levanta, deixando mostrar também seu lindo vestido, que vai um pouco abaixo dos joelhos. Comenta algo com um rapaz e aponta para nossa mesa.
        O homem, então, dirige-se até nós. Nesse momento, digo: “Dani, o que será que está acontecendo? Será que atrapalhamos a mulher, só de olhar para ela?”
        E, então, o rapaz nos convida para nos sentarmos junto com a senhora do chapéu. Achei tudo aquilo muito estranho, mas resolvi “arriscar”. Ao chegar perto dela, cumprimentei-a com aperto de mão firme, me apresentando no meu francês não tão fluente como gostaria. “Alloyse”, disse eu. “Daniele”, disse minha amiga. A bela mulher não se apresentou, apenas perguntou se queríamos nos sentar com ela, afinal, “estávamos olhando para ela”, disse.
        E então foi que, ainda meio que sem jeito, havíamos comentado que éramos estudantes e que estávamos há pouco tempo na cidade e que achávamos tudo lindo. Dani é fonoaudióloga e veio estudar canto lírico, expliquei. Eu sou escritora, nas horas vagas, claro. Estudo antropologia. Nada melhor que Paris para fazer isso, comentei. E a senhora?
        “Eu povoo o imaginário de muita gente”, disse a mulher exuberante.
        “Entendi. Você é famosa, então, perguntei.”
      “A fama não é bem o que as pessoas pensam o que é. A fama é uma grande ilusão. Mas, claro, tem o seu lado bom”, disse a senhora.
        “Como o quê?”, perguntei.
        “Ah, como saborear tudo o que a vida pode lhe oferecer, sem culpa, sem medo, sem pressa, sem dar satisfações”, acrescentou.
        Nesse momento, pensei: “essa mulher deve ser muito rica”. Mas, antes que meu pré-julgamento saísse pela boca, ela disse: “mas, há muito mais sofrimento na ilusão do que felicidade. Iludir-se com o coração pode criar feridas profundas, tão tristes que, às vezes, é difícil removê-las.”  
        Dani, então, disse: “bom, nesse caso, vamos lembrar do lado bom da fama. O que a senhora faz?”
        “Eu loto teatros”, disse ela, sorrindo com o canto da boca, ainda marcada pelo batom vermelho.
        “Você é Maria Callas, não é?” Eu tinha que perguntar.
        E, então, ela apenas consentiu com a cabeça. Olhei para Dani, que olhou para mim e ficamos mudas. Coloquei a xícara de chá na mesa antes que a derrubasse no chão.
        “Você sabe o quanto admiramos seu trabalho”, enfatizei, com ênfase mesmo!
        Num gesto de timidez, ela apenas baixou o olhar. E quando saí do meu estado de choque (e a Dani também), resolvemos, então, perder a vergonha e conversar, de verdade, com Maria Callas.
        Dani comentou: você é mesmo Anna Cecília Sofia Kalogeropoulos? “Não estou acreditando”, afirmou ela. Dani sabia quase tudo sobre sua vida. Era uma de suas cantoras líricas preferidas.
        Vamos abrir parênteses antes de retomarmos a conversa com Callas: a “Casta Diva” estudou canto no conservatório de Atenas, onde permaneceu até 1945. Com apenas 15 anos, estreou no canto lírico na Ópera de Atenas e alcançou o sucesso com a ópera La Gioconda, de Ponchielli, que interpretou em 1947, em Verona, na Itália. É considerada a maior musa que já existiu na Ópera. Isso porque produziu uma importante discografia, que a fez brilhar nos cenários mais famosos do mundo. É também dona de uma qualidade vocal ímpar, que certifica os fatores imprescindíveis para um cantor lírico: domínio da técnica e dom.
        Naquele pequeno universo de uma mesa (sim, porque diante de Maria Callas, quem se importa com os croissants?), havia muito pra se conversar. Na verdade, não sabíamos muito bem o que fazer diante de Callas, que tão gentilmente havia nos recebido.
        Como entendia mais sobre canto lírico, Dani puxou assunto. Lembrou ela: a voz para música erudita exige empenho, dedicação e longos anos de estudo. É preciso consciência vocal, postural e respiratória. Todo esse conjunto na senhora é tamanho, tanto que pode ser considerada uma cantora lírica excepcional. Muitas pessoas ainda se lembram de suas lendárias apresentações, como na Norma, de Bellini:






        Callas sorriu. “Foi lindo, o Opera Garnier estava sempre lotado. Minha voz estava muito aquecida naquela época” – comentou a Diva.
        “Eu não quero parecer fanática, mas sua voz é incrível”, lembrei-a. Todos ainda se lembram de sua interpretação de Mio Bambino Caro:





        Dani, então, comentou: “é verdade. Suas interpretações ficaram marcadas. Aliás, a dedicação aliada à força para interpretar seguramente lhe fizeram alcançar o patamar dos grandes artistas do século.” Um exemplo disso, comentou Dani, é o concerto em que se apresentou no Convent Garden, em Londres, em 1962:





        Callas deu uma grande gargalhada, soltando a cabeça para trás. “Cantar é praticar. Pratiquei muito e me dediquei. Mas, com certeza esses foram anos de ouro.” É evidente que a Diva tinha conhecimento da sua grandeza. Não se mostrava modesta, mas também não era arrogante. Ela apenas sabia do que era capaz.
        Quando pergunto como se sente atualmente (depois de um escandaloso casamento com o milionário Onassis e também da dura relação com os teatros - não cheguei a mencionar isso, mas era sabido que Callas tinha temperamento difícil, a ponto de abandonar alguns teatros e de ser expulsa de outros), a Diva deixa escapar sua alegria de ter vivido uma vida intensa, de luxo, beleza e, acima de tudo, talento.
        “Hoje, estou em paz comigo mesma e aceito quem eu sou, com meus limites, com minhas vantagens. Tomei minhas próprias decisões, cometi alguns erros, mas tenho muita sorte. Eu me considero uma pessoa, muito, mas muito sortuda, porque eu vim do nada e aqui estou.”
        Gostaríamos de ficar horas ali conversando com a Diva, mas o chofer a chama. “Sra. Callas, o carro está pronto”.  Olho pra Dani como quem acorda de um sonho maravilhoso. “Ainda tenho tantas coisas a dizer e a perguntar à senhora Callas”, digo a ela tentando fazê-la ficar. Antes de sair, estende as mãos para nós e complementa:
        “A vida é assim, mocinhas. Vocês irão amar, viver intensamente, mas o importante é continuarem a ser vocês mesmas”. 
         Observamos uma mulher elegante, dentro de um vestido azul marinho e um chapéu preto desaparecer pela porta do café. Uma mulher única, numa voz única!








p.s: Claro que essa história é fictícia, afinal, esse encontro seria impossível. Nasci três anos depois da morte de Maria Callas e Danielle, oito anos. Já que o destino não nos uniu (mas, me apresentou a Dani, uma amiga que mora em meu coração), tivemos o capricho de reinventar o destino. Abrimos nosso coração e convidamos Maria Callas para papear com a gente. Não é que ela aceitou o convite?

Uma breve apresentação sobre Daniele Almeida:
 Fonoaudióloga pela Universidade Tuiuti do Paraná (2004), Aperfeiçoamento em Voz no Centro de Estudos da Voz - CEV-SP.(2008) Consultora na RICTV Record-Paraná. (2008 - atual). Diretora da Expressiva-Fonoaudiologia - Voz e Comunicação (2013 - atual). 

Para os apaixonados por Callas:

Aves Marias:








Algumas entrevistas de Maria Callas:










Curiosidades:






quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O que o seu coração diz?

        Uma senhora está parada na porta de entrada de um supermercado pequeno. Desses de bairro. Então, pega um pacote (aparentemente de pão) e o cheira. Permanece parada com o saco em mãos, durante alguns minutos, como se a cena pudesse ter sido pausada.
        Depois, abaixa o saco e comenta com uma vendedora: “isso aqui tem cheiro da minha juventude.” Passou no caixa, levou o pacote e saiu. A moça do caixa comentou: “eu, heim, é só café que tem dentro.”
        Não pra aquela senhora. O que ela deveria ter imaginado? Sua vida na lavoura? O torrador de café da família? Ou, o cheiro do café coado para seu grande amor? Só ela saberia.
        Um pouco mais pra frente, em um café, uma moça está com um livro em mãos. Sua feição é de tristeza, mas não parece triste, exatamente. E, num suspiro, deita o livro como quem vai tomar um fôlego, deixando aparecer o título da obra: “Orgulho e Preconceito”. Quando li a primeira vez o livro não tive dúvidas de que a personagem central, Elizabeth Bennet, é quem era a orgulhosa. Mas, isso não me deixava triste. Apenas, pensava: “que teimosa”. A frequentadora do café, observando que eu olhava pro livro dela, comentou: “esse Mr. Darcy é muito orgulhoso”. Fico furiosa, comentou. Eu, apenas sorri (como assim, furiosa?).
        Realmente, um ponto de vista é apenas um ponto de vista. E, é possível estender esse comentário a quase tudo: às visões sobre a política (tão debatidas nas redes sociais); aos chatos, que tentam te convencer sobre sua religião; aos missionários do futebol, que querem lhe impor seu fanatismo como se fosse obrigado ter a mesma atitude. Ah, isso vale também pras pessoas que querem causar polêmica sobre qualquer coisa que leem (com o nariz, claro), principalmente nas redes sociais.
        Diante de tantas opiniões distintas, acredito que o poder de expressão comunica muito mais que a democracia. Se se prestar atenção um pouco mais nos comentários das pessoas, seja em relação àquela senhora ou à moça do café ou ainda em relação aos que opinam sobre tudo e qualquer coisa nas redes sociais, existe uma pista muito evidente por trás de tudo isso: o que existe no coração de cada um!
        Tudo o que sai pela sua boca (e pela minha também) é um vestígio muito evidente de como cada um se sente diante de fatos. Bote reparo: muitas vezes alguém fala alguma coisa ou se expressa de maneira muito clara e objetiva. Mas, outra pessoa entende como uma afronta o que foi dito.
Já busquei entender esses não entendidos por meio da ciência da linguagem. Mas, foi, ao ouvir os corações, que, então, pude realmente compreender. Algumas têm o coração tão preenchido de negatividade que não conseguem enxergar a beleza em nada do que é dito.  Mesmo em momentos de celebração ou alegria ou descontração, conseguem verbalizar tensões, tristezas ou trazer um peso mais sério.
        No entanto, existem outras pessoas que, por mais que um momento esteja tenso, esquisito ou esteja uma situação limite (como a pobreza, por exemplo), conseguem verbalizar coisas lindas, felizes, palavras leves e preencher o espaço com muito amor. E mais: ver as coisas a partir de uma perspectiva muito otimista.
        Lembre-se: tudo o que é verbalizado é apenas um reflexo do coração. E, então, o que o seu coração diz?









quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O prazo é a inspiração

        Você senta em frente ao computador e checa o celular. Depois, olha, novamente, o computador. Abre uma aba para navegar um pouco e ler sobre outros assuntos. Abre várias páginas.
        O interfone toca. É a pizza. Você pensa: “não, tenho que me focar!” Aí, você lembra que se esqueceu de pedir alguma coisa para beber. Desce até a mercearia e compra um mate.
        Volta. Senta-se em frente ao computador.  Nenhuma ideia vem à cabeça. Então, você se lembra de que precisa pedir a um amigo para comprar os ingressos para o cinema.
        Senta-se novamente em frente ao computador. Ainda nenhuma ideia vem à cabeça. Aflito, olha no relógio. O prazo está acabando e você precisa escrever. Respira fundo.
        Levanta-se para lavar o rosto. Vê que os colegas de trabalho já estão indo embora. “Já é tarde”, você pensa. Respira fundo novamente.
        Digita algumas palavras no teclado, mas não lhe parece ser uma ideia concreta. Apaga tudo!
        A página em branco com um sinal do cursor parado aumenta a sensação de que algo está errado. “Por que não consigo escrever?”
        Alguém toca a companhia. É a última entrega do dia. Uma correspondência que nem é para você. Aí pensa: “pronto, o mínimo de raciocínio se foi.”
        Senta-se em frente ao computador. Coloca a mão na cabeça. E pensa: “isso só acontece comigo.”
        Por muitas vezes desejei que o ato de escrever fosse uma cena bucólica, sentada em um grande gramado verde, num dia de sol, com um caderno antigo numa mão e na outra a caneta tinteiro. Em meio às flores, o cheiro da lavanda vem de todos os lados. Amparada por uma sombrinha de linho, então, a inspiração viria. Sem bloqueios, sem medos ou sentimentos estranhos. Quem não gostaria?
        Talvez Jane Austen tenha vivido essa cena, duzentos anos atrás. E, com certeza, estar perto da natureza em uma situação tão ideal para a elevação do pensamento e criatividade talvez tivesse ajudado uma das mulheres mais célebres da literatura a se tornar um clássico.
        É importante observar, no entanto que, assim como o ocorre em todo o mundo, na Inglaterra de Austen também existe o inverno (sempre existiram as estações). Imagino que, duzentos anos atrás, sem internet nem tv a cabo deveria ser meio decepcionante ficar dentro de uma casa durante alguns meses esperando a neve ir embora. Portanto, apesar de não ter sido íntima de Jane (mas, adoraria), tenho certeza de que ela abusou de uma estratégia que todos que precisam escrever (seja um livro, um blog ou um relatório bobo) deveriam tentar: a imaginação.
        Que tal, simplesmente, se transpor para um lugar onde gostaria de estar? Se você precisa escrever algo que está na sua cabeça já imaginou encontrar um cenário para se sintonizar consigo mesmo? Acredito que esse seja um passo valioso. Não convivi com os grandes escritores, mas tenho absoluta certeza de que eles se permitiam a criar os cenários mais lindos possíveis no momento da escrita.
        Bom, mas na época de Jane Austen, por exemplo, não havia prazo. Eu não tenho tanta certeza assim. Mas, vamos supor que não! De qualquer forma, um passo já foi dado para o desenvolvimento de sua escrita. Agora, é encaixar esse cenário lindo dentro do tempo que se tem para escrever.
        Existe uma frase de alguém conhecido (que só eu não conheço), talvez Millor Fernandes, que seria mais ou menos assim: “o prazo é a maior inspiração.” Duvidava seriamente dela até que escrever passou a ser um negócio, literalmente.
        Quando se precisa escrever é fundamental ter a intenção de que se vai escrever. Não abrir outras abas do computador, não navegar pelo Facebook. Nada disso vai lhe ajudar. A inspiração está dentro de você. Mas, para encontrá-la, talvez uma música dê certo. Talvez criar, mentalmente, um cenário inspirador ajude. Mas, que tal simplesmente deixar vir? Sem medo do que vai sair? Sem receio do que vão pensar? Sem procrastinar por qualquer outro motivo?
Claro, algumas ferramentas ajudam na hora de escrever: ler livros, revistas e tudo o que vier pela frente faz enriquecer o vocabulário e o conteúdo. Amplia a cultura e o conhecimento de vida. E quanto mais bagagem se tem de vida, mais facilmente será sua escrita.
        Mas, se apesar de tudo isso sua escrita não fluir, escreva mesmo assim. Porque o seu prazo, meu amigo, vai estourar. Então, é melhor tentar. Além disso, quando se vê que é possível escrever dentro de um prazo é como passar de fase: você está apto a escrever sob pressão, mais vezes. 
        E, quem sabe, da próxima vez que você escrever, não chame a Jane Austen para um café? Ela vai admirar a sua inspiração com um prazo estabelecido!








quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Um pouco mais do humano que há em você!

      
      “Aqui não é para sorrir, tenho pressa” - diz uma pessoa com quem dialoguei, certa vez!
        Acredito que o bom humor é um ingrediente único quando se está em uma situação “delicada”. Ajuda a sair de muitas saias justas porque traz leveza.
        No entanto, não foi assim que meu interlocutor entendeu. Eu não havia feito uma piada, nada disso. Apenas sorri e tentei descontrair, com algumas palavras, devido a um “problema” causado pelo próprio interlocutor. Disse coisas do tipo: “ah, vida é assim”. Mas, o interlocutor tinha mais pressa do que o desejo de descontrair.
        Lembro-me que depois do encontro, senti-me estranha. Entrei em um café, pedi um chá gelado e fiquei sentada, atônita. Como assim, não se pode sorrir? Demorei a entender o que aquelas palavras queriam dizer. O interlocutor não queria que eu sorrisse porque achava inapropriado naquele ambiente? Não pode ser! Eu não havia debochado. Além do mais, só estava eu e o interlocutor no ambiente. As paredes não podem saber que sorrimos? Será que não havia gostado de meus dentes? Não, não pode ser isso. Fiquei ali sentada, com um ponto de interrogação no olhar e um desejo de mais calor humano. Aquelas palavras não me saíam da cabeça!
        Quando foi que o ser humano deixou de ser humano? Em pleno século XXI, não se pode mais expressar o desejo comum de qualquer pessoa que é o de ser feliz? Ou demonstrar alegria? Entendo que, até certo tempo atrás, em muitos ambientes de trabalho, ser sisudo era um ideal para demonstrar respeito. Mas, num mundo globalizado em que as pessoas estão mais abertas às trocas de todas as formas; em que se tem acesso a todo e qualquer tipo de informação; em que a felicidade é apreciada em qualquer lugar que se vá (até na propaganda da Coca-Cola); em que as pessoas pensam mais sobre o meio ambiente e estão, cada vez mais, conscientes de serem agentes de um mundo melhor; como podem os profissionais ainda se vestirem de um distanciamento de ser um humano?
        Quando vejo situações como essa, às vezes, tenho a sensação de que a “vestimenta” de ser “alguém importante” realmente se sobressai ao humano que está dentro de cada um: uma pessoa que teve infância; deve ter tido amigos; romances e até viagens legais em seu repertório. Mas, que por um motivo (a meu ver) menos nobre, deixou-se reforçar apenas por seus interesses imediatos: “eu sou o tal, não sorria porque você pode atrapalhar meus pensamentos”.
        Mas, o que é a vida senão um movimento contínuo cheio de altos e baixos e ciclos? Ninguém dura eternamente em uma posição de “o tal”. Além disso, a longo prazo, o distanciamento da vida humana (amigos, família, divertimento, alegrias grandes ou pequenas) faz calar o melhor de cada ser. E, ao final da vida, eu me perguntaria (e, com certeza, me perguntarei): o que eu colhi para mim? O que deixo como legado como ser humano? Uma carreira? Mas, uma carreira não deveria ter sido apenas uma parte da minha vida?
        Eu sei que sou idealista e gostaria de ver um mundo mais humano. No entanto, não estou sozinha. Assim como eu, sei que, dentro de muitas pessoas há um desejo maior de explorar o seu próprio coração, seja por meio do amor, da alegria, da felicidade ou, simplesmente, expressando a vontade de tomar um sorvete. Sem o medo de parecer um humano!