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quarta-feira, 14 de maio de 2014

O som do silêncio

                Já parou para pensar em quanto barulho você escuta ao longo de um dia? Pela constatação óbvia, muitos não?
        Uma das características da nossa era é o excesso de informação, e junto com ela, vem outra: uma enxurrada de estímulos sonoros.
        Quase tudo o que rodeia as pessoas, hoje em dia, tem som. O seu celular emite uma infinidade de sons. Ainda tem a televisão, o Ipod, o som dentro do carro, qualquer loja tem música ambiente. Tem o barulho do trânsito, dos elevadores de prédio (sim, porque o elevador do prédio onde moro parece esconder um Tiranossauro Rex no fosso). Em alguns supermercados existem aparelhos de TV que transmitem as programações de notícias. Há televisões também dentro dos ônibus de transporte coletivo, em algumas cidades. Há músicas (nem sempre de qualidade) dentro dos ônibus.
        Há som nos restaurantes e barulho de gente conversando. Alguns ainda oferecem, som (ao vivo ou gravado).
        Já tentou trabalhar em um café? O barulho da máquina do expresso chama a atenção de qualquer um. Tem também o barulho dos pratos, das pessoas arrastando as cadeiras. Famílias inteiras falando alto. Há músicas até nos parques, por meio da caixas de música espalhadas. Há som dentro de algumas igrejas.
        Essa parece ser mesmo a era dos estímulos! As pessoas são estimuladas a tudo: a comer mais, a trabalhar mais, a se preocupar mais com tudo (saúde, família, segurança, sexo) e acabam recebendo estímulos auditivos também cada vez mais.  E essa constatação não me soa como música para os meus ouvidos!
         Há duas décadas, lembro de ouvir a minha respiração ofegante voltando do treino de futsal. Eu podia ouvir o meu coração bater muito forte, parecendo que ia sair pela boca. E, então, ficava ouvindo, durante muito tempo uma composição inesperada ritmada pelas batidas do meu coração e pela respiração que tentava acompanhar bravamente, algumas vezes, sem fôlego. Quando o treino era em um ginásio, tinha que caminhar ainda mais um pouquinho até chegar em casa. Para o meu deleite, ouvir que o meu coração ia se acalmando conforme as quadras iam ficando para trás, era recompensador, quase um alívio. Era sinal de que iria ter fôlego para o treino do dia seguinte!
        Há duas horas, não consegui ouvir o que uma pessoa tentava me falar ao telefone, enquanto cruzava uma rua. Eu dizia “alô, alô”, e a pessoa no fundo dizia: “não te escuto”. Eu não tenho dúvidas disso.
        Tenho um pouco de saudades - e olha que não sou saudosista -  daquele momento em que eu podia me acalmar ao ouvir que meu coração ditaria um novo ritmo, conforme os sons das passadas. E tenho a sensação que hoje “o mundo” me oferece tantos estímulos sonoros que “se ouvir” teria se tornado uma prática incomum (quase uma esquisitice).
        Será? Mas, esse não é o grande ensinamento de qualquer ciência que fala sobre o bem estar? Não é isso que prega qualquer filósofo? Que diz o pessoal da Yoga? Que falam os grandes gurus? Não é isso que prega a sua mãe? “Filho, escute o seu coração”, não é isso que elas falam?  Se ouvir? Se interiorizar?
        Acredito que a era do barulho pode ser bastante estimulante em um primeiro momento. Mas, e quando o estímulo passa? Não seria necessário outro estímulo e outro e mais outro?
        O que acho contraditório da era dos sons é que cada ser já tem dentro de si tanto barulho que vem de fora (e de dentro mesmo), que questiono por que é que as pessoas querem se encher de mais sons? É evidente que eles são completamente necessários para a vida e manutenção dos sentidos. Mas, será que tantos estímulos auditivos não estariam encobrindo ou até apagando alguns sons mais simples, como o barulho de pássaros, o de andar na rua, os saltos que caminham sobre o piso de madeira? Ou até mesmo fazendo apagar a singeleza dos sons dos pensamentos?
        Confesse, qual foi a última vez que você escutou os seus passos?
        Por isso, hoje, proponho o som do silêncio. Isso mesmo. Desligue-se de tudo, sente-se em seu sofá ou um lugar bem confortável e observe. Faça companhia a si. E descubra a agradável sensação do não estímulo! De não conversar, de não interferir a uma provocação sonora. Apenas escute o seu redor.
        E, o melhor, escute-se, apenas! E, se conseguir, deixe que o silêncio tome conta de si, tirando qualquer barulho que você, no estímulo de seus pensamentos, possa produzir.
        Perceba o som do silêncio!







P.s: gente, o título não tem nada a ver com a maravilhosa música Sond of Silence, de Simon e Garfunkel. Não vou postar a música aqui porque quero que você fique em silêncio.

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