Marcadores

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A Comunicação e o Empreendedorismo

        Uma das definições para o verbo empreender é “resolver-se a praticar”[1]. Achei essa definição bastante próxima da realidade do empreendedorismo brasileiro. Para ser empreendedor é necessário ter uma série de habilidades como visão, por exemplo. E perspicácia para enfrentar os obstáculos mais inesperados possíveis – apesar de todo planejamento.
        Tenho chegado à conclusão de que o brasileiro é mesmo corajoso porque, para empreender, é preciso muita coragem. Em uma nação onde 27% da população[2] adulta são empreendedores, só posso concluir que temos quase 30% de brasileiros que adoram um desafio.
        No entanto, particularmente, acredito que a palavra que mais se encaixe ao perfil do empreendedor é persistência. Como é preciso ser persistente para continuar em frente! Claro, é preciso uma série de coisas, como inovação e planejamento também. Mas, persistência é uma palavrinha que todo empreendedor conhece. E é por isso que hoje vou contar uma história de persistência e sucesso.
        Há uns dois anos, subi dois lances de escadas de um prédio e adentrei o primeiro espaço coworking de Curitiba. Um local charmoso, modesto e com um ar cool. Lá estava o dono do local, André Pegorer. Um rapaz novinho (aparentava ter mais ou menos a minha idade), com um olhar bem profundo e uma voz mansa que tranquiliza até os mais agitados. Quando cheguei, ele estava varrendo o chão. E, então, parou o que estava fazendo para me apresentar o local. Fiquei muito feliz com a visita e nunca mais parei de ir ao Nex.
        André conseguiu, em poucas palavras e com toda sua diplomacia característica, me explicar o que era um espaço coworking. Para alguém como eu, que sempre teve um destino certo de trabalho (ou seja, fui empregada durante 15 anos), entender essa nova dinâmica de trabalho pareceu-me um pouco estranha em um primeiro momento. Mas, André logo me advertiu: “além de um escritório, o ambiente de coworking é um local muito bom para se fazer networking, conhecer gente nova e fazer amigos”. Ele estava certo em tudo. Enquanto estive no Nex (não deixei de ir lá, apenas mudei de cidade), troquei serviços com outros empreendedores, ganhei clientes e conheci pessoas maravilhosas, que hoje são meus amigos. O que me chamou a atenção, dois anos atrás, era que, em Curitiba, ter um espaço coworking poderia ser um grande risco. Inaugurar um produto ou serviço novo é sempre um risco.
         Lembro-me do André dizendo, naquela época: “eu tenho que varrer o chão, lavar a louça, trocar a lâmpada, arrumar os móveis, cuidar da contabilidade, receber as pessoas, tudo sou eu que faço.” E, foi, então, que, dois anos depois, eu vi o resultado de tanta persistência. O Nex vai mudar de endereço e se torna o maior espaço coworking do país. Além disso, planeja abrir filiais no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Porto Alegre e Belo Horizonte.
        No ano passado, André participou como painelista na quarta edição da Conferência Europeia de Coworking, Barcelona, na Espanha. O evento reuniu empreendedores de mais de 40 países que, durante quatro dias, debateram sobre as novas formas de trabalho e novos modelos de negócios baseados em colaboração e inovação.
        E, como o André é um baita empreendedor, convidei-o para um bate papo sobre empreendedorismo e comunicação, claro.

-      Para começar, uma curiosidade minha. Por que você escolheu ter um espaço coworking? Quando ocorreu essa escolha?  E o que você fazia antes de ser empreendedor?
Antes de empreender com o Nex, trabalhei em diversos projetos no terceiro setor e no poder público. Gosto muito dessas duas áreas. No início de 2011, encerrei um ciclo de trabalho no Governo do Paraná e tomei a decisão de empreender na iniciativa privada. A primeira ideia era um negócio de consultoria nas áreas de comunicação e sustentabilidade. Comecei a trilhar esse caminho, me preparar. Durante esse processo, conheci o conceito de coworking e me encantei. Três meses depois, iniciei a operação do Nex em Curitiba.

-      Nossa, três meses! Uau! Bom, já são três anos de Nex, muito intensos. Conte para o leitor, como foi essa trajetória até aqui?
Muito intensos mesmo! Abrir um negócio é uma experiência muito nova pra mim. Quando você toma essa decisão, precisa entender que vai passar por muita coisa ao mesmo tempo. Desde reorganizar as finanças pessoais, porque cada centavo conta, até liderar uma equipe de uma pessoa só ou aprender a lidar com a incerteza. A responsabilidade é grande, às vezes pintam dúvidas, mas a jornada é muito prazerosa.

Nos primeiros dias de operação eu tinha um escritório lindo, mas vazio. Dava um grande frio na barriga. Devagar, os primeiros coworkers foram chegando, os primeiros contratos sendo assinados. De repente, a primeira funcionária, a segunda, a terceira. É quando você se dá conta de que tem uma equipe, uma série de clientes e, no nosso caso, uma comunidade incrível. Você percebe que tem uma empresa funcionando e gerando impacto. Essa sensação é muito boa.


-      Em algum momento você pensou em desistir ou teve medo de não dar certo?
Tive medo em vários momentos e, em alguns, desistir foi uma hipótese. Aliás, esse é um dos grandes aprendizados da minha caminhada até aqui. Penso que numa jornada empreendedora não há espaço para valentões, aqueles caras que batem no peito e dizem que não têm medo de nada. Esses são inconsequentes. Acredito que o que há é espaço para quem tem dúvidas e, ainda assim, segue em frente. O medo existe, mas o propósito e a crença são muito maiores e te lançam com uma intensidade tão boa no caminho, que a hipótese de desistir fica cada vez mais remota.

-      Coworking é uma palavra em inglês que traduz um sentido de “trabalho compartilhado”. Essa é uma tendência que veio para ficar? Compartilhar espaços, ideias e projetos é o futuro presente?
Sim, tenho plena convicção. Se você parar o que está fazendo agora e olhar pela janela, o que vai ver é que há um mundo novo florescendo. Estamos em uma mudança de era incrível e vem muita coisa boa por aí. E o que adoro nisso tudo, é que essa nova era no trabalho e nos negócios está resgatando valores humanos muito importantes.

Um escritório compartilhado, enquanto negócio, resolve um problema muito simples: tira as pessoas do isolamento. Quantas pessoas você conhece que, por muito tempo, desejaram poder trabalhar um home-office e, quando isso aconteceu, entraram em parafuso? Ficar sozinho por muito tempo é péssimo para as pessoas e para os negócios. O mesmo acontece com as empresas. Quando elas se isolam, não inovam e, se não inovam, morrem. Estamos aqui pra ajudar a resolver esse problema.

-      Como você observa hoje o cenário do empreendedorismo no país?
Quando falo em uma nova era, vejo isso também no cenário empreendedor. Conhecemos gerações inteiras que cresceram com a cultura de que arrumar um emprego é segurança e empreender é insegurança. Me parece que este paradigma está caindo e isso é ótimo. Estamos inaugurando um tempo em que as pessoas escolhem as empresas e não o contrário. É um reposicionamento no eixo das escolhas, colocando o ser humano acima das instituições. Isso favorece o empreendedorismo, encoraja.

Vemos os movimentos de formalização de empreendedores que por muito tempo trabalharam na economia informal. Vemos os movimentos de startups e a criação de ecossistemas de empreendorismo e inovação. Vemos instituições e empresas criando programas internos para estimular internamente a jornada empreendedora. Tudo isso cria um ambiente muito favorável.

Por outro lado, vejo dois desafios muito claros e para os quais ainda não encontramos resposta. O primeiro é na educação. O modelo educacional brasileiro - público e privado -, salvo raras exceções, não prepara empreendedores. Você entra em uma faculdade e não é estimulado a correr riscos, a tomar decisões. Aí essa formação precisa vir depois e perdemos um tempo precioso. O segundo problema é marco regulatório. Acho que já avançamos muito nesse sentido, mas ainda é muito difícil abrir uma empresa, dar os primeiros passos. A legislação e a carga tributária ainda afastam muita gente da decisão de empreender. Precisamos dar passos mais largos no sentido de simplificar esses processos.


-      Eu citei algumas habilidades que os empreendedores devem ter, como inovação e persistência, por exemplo. Quais características você acredita que todo empreendedor deve ter?
Vou começar por uma que acho desnecessária: talento. As pessoas dizem que é preciso talento para empreender. Não é verdade. Você não precisa ter um talento especial, precisa ter coragem. É isso que te leva longe. Vejo isso em vários empreendedores e, esses dias, vi isso ser muito bem colocado em uma aula da Perestroika (uma escola que todo empreendedor precisa conhecer).

Outra característica que considero super importante é resiliência. O conceito vem da física e vale a pena pesquisar melhor. Mas, em síntese, é a capacidade de passar por problemas e sair deles mais forte do que entrou. Quando você empreende, enfrentar problemas vira uma rotina. Você erra, cai, fracassa. Se você é resiliente, tudo isso é importante para que você possa crescer.

-     Concordo com você. Ninguém precisa ter talento para empreender, precisa coragem mesmo. Mas, continuando, vamos falar um pouquinho de comunicação: você é uma pessoa bastante diplomática. Como a comunicação pode ajudar ou atrapalhar o empreendedor?
Penso que em uma jornada empreendedora é preciso se relacionar bem com as pessoas. Tem uma série de valores importantes aí, como transparência, honestidade, paixão, cuidado. E a comunicação é a ferramenta para dar forma a esses valores.


-      Como comunicadora, uma das coisas que observo é que, nem sempre, os empreendedores dão importância real à comunicação. E quando falo comunicação não estou falando apenas sobre marketing ou “como fazer com que minha empresa se destaque na mídia e nas redes sociais”. Estou falando sobre comunicação pessoal mesmo. Vejo gente investindo pesado em maquinário e estrutura física da empresa, mas não sabe ter uma conversa interessante com um cliente ou não sabe, simplesmente, abordá-lo. Como você observa essa situação?

Concordo plenamente. Em um negócio, quando você está vendendo e entregando um produto ou um serviço, as pessoas precisam perceber claramente os seus valores, o que você pode agregar, o impacto que você pode gerar. Isso vai fazer com que elas se sintam bem. Se você tiver tudo isso, mas não comunicar, vai ter dificuldade.

E por comunicação, entendo desde definir bem toda a sua estratégia de marketing, seu posicionamento, a descrição do seu negócio até o saber olhar nos olhos e dizer as palavras certas. Sem comunicação você não se relaciona. Se não se relacionar, fica sozinho. E se ficar sozinho, não vai longe.

-   E para encerrar: como o André empreendedor imagina o futuro do empreendedorismo no país? Ou no mundo?
Confesso que não gosto de falar muito sobre o futuro. Acredito que o futuro é uma consequência natural e inevitável do que estamos fazendo hoje. Pra mim, a caminhada é muito mais excitante que o destino.

O que estamos vivendo em termos de jornada empreendedora, no Brasil e no mundo, é algo muito grande. A tecnologia dá poder às pessoas, facilita a colaboração. E quando as pessoas se conectam entre si, on-line e off-line, coisas incríveis acontecem. E o que me anima é que as pessoas estão usando isso para o bem. Todos os dias ficamos sabendo de um novo negócio que gera grande impacto, e isso acontece em todos os cantos. Não tem como não se apaixonar por esse novo mundo que estamos construindo.

André, me sinto muito grata por você compartilhar com a gente os seus conhecimentos. Fiquei emocionada com a última frase que você disse. Por isso, a destaquei na sua resposta. Prosperidade e sabedoria são as palavras que desejo ao Nex! E a todos os empreendedores também!

Para quem quer conhecer um pouquinho mais sobre o André:

André Pegorer  é empresário e jornalista. Fundador do NEX Coworking e Inovação, empresa de escritórios compartilhados que atualmente conta com uma unidade em Curitiba e outra em Cascavel. Junto com um grupo de investidores, até o final de 2016 pretende inaugurar outras cinco unidades no Brasil. Desde 2001, utiliza ferramentas de colaboração em projetos de governo, organizações sem fins lucrativos e empresas privadas.  Foi palestrante do painel Colaboração entre espaços de coworking, na 3ª Conferência Europeia de Coworking em Barcelona.





Para quem quiser conhecer o NEX: NEX COWORKING!
p.s: Leitor, alguns dados interessantes sobre empreendedorismo:



[1] Definição do dicionário Michaelis.
[2] Referência: http://exame.abril.com.br/pme/noticias/brasil-e-o-terceiro-maior-pais-em-numero-de-empreendedores


http://dnacomunicativo.com.br/produtos/




0 comentários:

Postar um comentário