Marcadores

quinta-feira, 20 de março de 2014

Um dia com Sara!


        Sara pula atrasada da cama. Mal dá tempo de ligar a cafeteira, liga o chuveiro, toma uma ducha, escova os dentes, passa na cozinha, pega a xícara do café e, num gole só, toma aquilo que sustentará a sua manhã.
        Enfrenta um trânsito daqueles. Mas, o mais difícil é enfrentar o marido reclamando, todos os dias, que ele vai ter aquela reunião chata já no começo da manhã, que vai tirar o humor dele pelo resto do dia. O dela também.
        Dá um beijo rápido no marido e lhe deseja sorte, com a certeza de que ele não ouviu e que não vai acreditar em suas palavras. E, então, entra correndo no escritório, vai direto para a sala do chefe, onde debatem a agenda para aquele dia. Vai ser um dia cheio, ela pensa.
        Depois de duas reuniões e uma visita rápida a um cliente (rápida para ele, porque ela teve que enfrentar meia hora de trânsito até chegar ao destino, mais cinquenta minutos até voltar), é hora do almoço com o pessoal do escritório.
        Durante aquela manhã, algo de diferente aconteceu com Sara. Em vez de se relacionar normalmente com as pessoas, preferiu se preservar e observar como as pessoas se comportavam. Ela estava cansada de desejar o melhor para o marido que não acompanhava seu desejo de “sorte” e então pensou: será que todas as pessoas são assim ranzinzas?
        Na primeira reunião com o chefe, ele já avisou: “se prepara, porque vamos ter um dia daqueles”. Como se fosse preciso ele dizer. Há anos no mesmo escritório, Sara não só sabia como era a rotina como também ajudava a ditar o ritmo do trabalho. Claro, com a aprovação do chefe. E, então, ela percebeu que ele tinha um prazer mórbido em lhe dizer que ela iria passar uma “manhã daquelas”.
        Na segunda reunião, com o departamento financeiro, Sara preparou não só o seu discurso como o estômago. Carlos, o chefe do departamento, é daqueles senhores que acha que o dinheiro dita o coração de uma empresa. Na verdade, dita. Mas, Carlos não precisava lembrar aos colegas o tempo todo sobre isso. Afinal, as pessoas sabem que elas trabalham também para ganhar dinheiro e não para ganhar uma estrelinha no caderno no fim do dia. Carlos conseguia ser aquele chato de todo santo dia! Daqueles que quando alguém fala “nossa, que dia ensolarado”, ele diz “vou morrer de calor”. Quase toda empresa tem um chato como Carlos e, naquele dia, Carlos estava especialmente chato.
         Sara, então, saiu já cansada da empresa para pegar um taxi (o que representa demora em uma grande cidade) até o cliente. Chegando lá, ele atrasou quinze minutos e chegou cuspindo marimbondo, porque naquele dia a mulher não pode levar o filho no colégio e sobrou para ele. Numa tentativa de acalmá-lo, Sara diz: “seu filho é lindo”! O cliente não diz nada.
        Sara então volta para o escritório e acha que todo mundo está tendo um dia ruim. Só pode! É o dia da TPM coletiva? Será?
        Quando volta para o almoço, reza pelo silêncio. Mas, o chefe a chama para almoçarem juntos e discutirem o “balanço” da manhã.
        E, então, durante dias, Sara apenas observou o que as pessoas estavam comunicando, dentro e fora da empresa. E, diante de pessoas que gostava tanto, começou a observar uma falta de alegria ou de leveza. Tudo parecia muito difícil para elas. Parecia que elas nunca estavam felizes. “Com certa razão, pensou. A vida está muito estressante”!
        Mas, aí, sem entrar na esfera dos “aborrecidos”, Sara percebeu que as pessoas com quem ela sempre convivia adoravam cultivar uma reclamação. Era quase um prazer para elas falar uma palavra negativa. E, foi então que Sara refletiu: “Será que eu sempre fui assim? Será que eu também reclamo tanto assim?” Ligou para Marta, sua amiga desde a adolescência.
        Tomaram um sorvete no fim do dia. Diante da amiga, perguntou: “Flora, você acha que eu reclamo muito? Tenho achado as pessoas tão reclamonas! Até o Júlio anda chato. Lembro que há alguns anos, a gente acordava sorridente e alegre e a vida parecia uma conquista atrás da outra. O que aconteceu”?
        E, então, a amiga disse: querida, essa Sara ainda está dentro de ti, mas quando começamos a olhar apenas as chatices da vida, achamos que está tudo errado e que nos falta muito. E, parece que quanto mais a gente tem e mais se conquista, mais insatisfeitos ficamos. Por isso, te digo: não te acho reclamona. Mas, acho que você tem olhado os 50% do copo vazio, ou seja, aquilo que lhe falta. Já parou para olhar tudo aquilo que conquistou até aqui? E mais, as pessoas tendem a não encontrar pequenas soluções para seus atos. Se se quis ter um carro, e se aborrece com os barbeiros, porque não usa o metrô? Percebe, amiga? As pessoas querem reclamar e não encontrar soluções para as situações que elas mesmas conseguiram criar para elas. Aí é fácil ver o copo vazio!
        Sara, confessou: está aí! Parece que todo mundo, (e eu inclusive), vê o lado ruim de tudo e, por isso, nada está bom!
        Nas semanas seguintes, Sara continuou observando. Mas, antes que as pessoas começassem a reclamar, dava um belo sorriso e dizia: eu sei, seu dia não está sendo fácil, mas já, já vai melhorar. Ela não conseguiu mudar ninguém, mas as pessoas não tiveram mais coragem de estragar aquele sorriso incrível que só Sara sabia dar! Sara ainda levanta atrasada, mas garante que ninguém mais vai estragar seu dia! Nem mesmo ela!


1 comentários:

Já dizia o eterno Chaplin: 'sorria'!

Postar um comentário