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quarta-feira, 12 de março de 2014

Buffet por quilo!




        Você chega a um restaurante, pega o seu prato e enfrenta uma longa fila de bandejas dispostas, uma ao lado da outra, repletas de comida. Preenche o seu prato pegando um pouquinho de cada produto exposto e quando chega à balança percebe que pegou muito mais do que gostaria.
        Assim é o buffet por quilo. Um lugar onde comida é ofertada na maior quantidade e variação possíveis. Mesmo olhando para o seu prato e sabendo que você já está satisfeito, sempre acha que cabe mais aquele franguinho ou aquela tortinha tão bonitinha.
        Particularmente, acredito que o buffet por quilo é a maior metáfora do mundo contemporâneo. Ali, há toda a variação possível de alimentos dentro de um único almoço. E o que as pessoas querem não é experimentar cada vez mais? Portanto, no buffet por quilo seu pedido é atendido. Você pode comer peixe com carne, empada com feijão e ovo de codorna com omelete. Uma overdose de tudo ao mesmo tempo agora. Por isso, digo que é a metáfora do tempo em que vivemos atualmente.
        Ter um prato muito variado (o que pode ser saudável em alguns momentos) é um reflexo de que as pessoas estão querendo muitas coisas, mas sem saber ao certo o que querem. Como na vida cotidiana: atende-se o celular dirigindo, fala-se com alguém ao telefone olhando a internet. Não que não se possa fazer isso. Não, não. São apenas reflexos de nossos tempos!
        O que questiono, no entanto, assim como nos pratos muito cheios e variados do buffet por quilo, é a qualidade daquilo que se vive naquele momento. Que qualidade existe em um prato muito cheio e variado? Assim como, que qualidade existe em fazer tudo ao mesmo tempo e agora? É preciso mesmo fazer tudo ao mesmo tempo? Ou apenas se quer demonstrar que se é muito atarefado? É tão preenchido assim o dia, como o prato do buffet por quilo?
        Em geral, o que as pessoas não percebem é que, assim como elas não buscam olhar um prato com saúde e sim quantidade, também não observam aquilo que dizem. Você já reparou na quantidade de coisas que as pessoas dizem? E como elas, muitas vezes, dizem coisas que você não entende? Ou dizem coisas da boca pra fora sem reparar na qualidade do que estão dizendo?
        Brinco assim que as pessoas que gostam de um prato variado e cheio do buffet por quilo são aquelas que, em geral, chegam em turma (geralmente a do trabalho) no restaurante buffet, fazem o seu prato (já descrito acima) e falam alto, falam mal do chefe, falam, falam, falam e voltam para o trabalho como se o almoço não fosse um momento de prazer, mas o confessionário do Big Brother.
        Convido o leitor a voltar um pouco no tempo. Não faz cinquenta anos (aliás, acredito que não faça nem 20) que almoço era aquele momento de relaxamento familiar, em que as pessoas se sentavam ao redor da mesa. Os mais religiosos faziam uma oração antes de comer, outros apenas tentavam tornar aquele momento de prazer e satisfação (sim, porque os pratos eram caprichados).
        O que aconteceu desse tempo para cá é que se tornou inviável almoçar juntos em uma mesa e, então, os restaurantes passaram a ser a principal atração. Não há nada de ruim nisso. Conheço excelentes restaurantes que servem comidas maravilhosas.
        No entanto, questiono a postura que as pessoas têm diante da comida e da fala. Por que é que se quer mais e mais, cada vez mais? Será que as pessoas não estão fazendo a mesma coisa com a comida e com a fala? Todo mundo hoje pode se expressar (principalmente em casa e nas mídias sociais). Será que elas estão reparando naquilo que estão dizendo ou estão misturando o que dizem, misturando, inclusive, as ferramentas para expressar o que sentem?
        Honestamente, acredito que o que colocamos para dentro da boca é um reflexo do que colocamos para fora dela!
         E, então, te pergunto: como está a sua comunicação nesses tempos de buffet por quilo?



p.s: nada contra os buffets por quilo. Apenas os utilizei como metáfora para a comparação entre alimentação e comunicação.

5 comentários:

Como sempre, Alloyse, um texto de qualidade! Respondendo: ainda prefiro "A Festa de Babet" à Torre de Babel contemporânea.

Alloyse, boa tarde! Extremamente pertinente o seu texto e suas observações. Concordo com quase tudo que você escreveu. Apenas me permito questionar um pouco se o que realmente colocamos para dentro da boca é, de fato, um reflexo daquilo que boca a fora. Porque, às vezes, falamos sem pensar, exatamente como quando colocamos no prato coisas das quais não precisamos ou não queremos, mas nos sentimos atraídos por elas. É isso! Somos atraídos e, por vezes, algumas parde demais, nos damos mal, de certa maneira. Ainda não havia pensado da forma metafórica como você colocou: comunicação X comida. Considero brilhante! Valeu demais.

Alloyse, como sempre texto de qualidade. Respondendo: em comunicação, continuo preferindo a "Festa de Babete" do que a Torre de Babel.

Oi, Celso.
Tudo bem?
Obrigada por seu comentário.
Seja bem-vindo sempre!
Acrescentando a sua reflexão: concordo contigo. Acredito que, muitas vezes, falamos coisas que nem caberiam em nossa boca. Assim como também, acredito que quando não colocamos alguns sentimentos para fora, colocamos mais comida para dentro. Ainda dá para ampliar muito essa questão aí. Abraços.

Olá, Anônimo.
Agradeço a audiência e o comentário! Rssssss.
Abraços!

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