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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Vim observar!

        Chego atrasada a uma consulta. Toda esbaforida, pergunto à secretária se o médico também está atrasado. Por sorte ou por rotina dele mesmo, estava muito atrasado. Ainda havia dois pacientes na minha frente.
        Pego uma revista tentando acalmar a ansiedade. Agora, sou eu que vou me atrasar, pensei. Não vai dar tempo de fazer a unha. Ou será que eu deixo a compra das frutas para amanhã? Sem me focar em nada, entendo que bater a perna e pensar em mil coisas não vão fazer com que o médico me atenda só porque eu quero. Não adianta ficar ansiosa.
        Demora um pouco até que eu consiga sair da agitação normal para uma sensação de mais calma. Com a revista em mãos, abro em uma página aleatória.  E, então, vejo uma imagem que quase me paralisa: uma criança que observa as ondas em um rio, causadas por uma pedra que acaba de atirar. E, então, fixada naquela imagem, pareço ter entrado nela, como no filme Mary Poppins em que as personagens caem dentro de um desenho e vão fazer um passeio pelo imaginário/real.
        Onde é esse lugar? Quem é essa criança? Ela tem cabelo muito liso, e então, inferi que fosse uma foto tirada em qualquer lugar da Ásia, onde uma das características físicas mais marcantes é o cabelo desse tipo.
        A foto não tem nenhuma legenda. Busco, no texto alguma explicação. A foto não tinha qualquer ligação com a reportagem. Até pensei: meu Deus, quem diagramou essa revista? Mas, enfim, voltei a me fixar na foto. Aquela menina estava me intrigando. A foto ocupava quase meia página. Seria uma propaganda? Não tem nada escrito nela.
        Era possível ver os detalhes da cena. Um dia de nublado, uma criança com um cabelo escorrido, na altura do ombro, pele clara, mas nem tanto, vestindo uma roupa universal (moletom azul) está agachada diante de um rio. Ela apenas observa. A foto foi tirada logo que a pedrinha entrou na água. Ainda é possível ver as gotas transbordando para fora do rio com o impacto da pedrinha.
        A criança está sozinha e apenas olha a cena. E assim, como ela, fiquei ali esperando o que aconteceria depois, mesmo sendo uma fotografia. E, então, voltei a olhar para o rosto da criança. Ela era a imagem do silêncio. A expressão da leveza. Parecia que não queria dividir seu espaço com ninguém. Queria apenas estar lá. E, então, entendi que, assim como ela, eu deveria observar. E o que é observar?
        Buscamos respostas o tempo todo. Buscamos encontrar soluções para os nossos desejos e questões que, claro, fazem parte do nosso cotidiano. E, se não fossem elas, o que nos moveria, não é verdade?
        Mas, temos mesmo que buscar respostas para tudo? A criança que observa o rio nos mostra uma maneira diferente de enxergar o mundo. Ela observa no silêncio. E observar tem muitas interpretações, mas gosto de uma em particular: quando observamos algo ( alguém, a vida, o cachorro ou a pedra no rio,) deixamos de desejar. Apenas aceitamos que a vida é daquele jeito. E então, paramos de comunicar coisas ou paramos de nos comunicar.
        Observar é aquietar a mente. É compreender uma situação sem interferências. É respirar a vida, sem que algo atrapalhe.
        E, então, assim como a criança, apenas observei aquela cena. Até que a secretária do médico me tirou do meu estado de profundidade e observação. “Olha, sinto muito, mas o médico não vai poder te atender. Ele tem uma cirurgia de emergência”, disse a secretária.
        “Não tem importância”, digo a ela. “Já conclui o que vim fazer aqui”. A moça me olha, aguardando uma resposta.
        Vim observar!
       






p.s: tentei levar a revista para a casa, mas a secretária não deixou. Não tem importância. A imagem daquela menina está gravada em meu coração. E toda vez que estou muita agitada, me lembro da sabedoria daquela menina.

4 comentários:

Uau... Alloyse... No mundo não há coincidências... Tudo está conectado... Apenas percebemos isso quanto estamos preparados ou num estado de só observar com você bem descreveu aqui. Olha só que coisa engraçada. Cheguei neste texto, um tanto por acaso.. ah.. não existe esse tal acaso, não é mesmo. Mas comecei a ler e logo lembrei que ontem a noite (quarta, 19/02), perguntei para meus alunos de marketing. Quanto tempo do seu dia, da semana, da sua vida, você reserva para você mesmo. Apenas para sentar em algum lugar tranquilo, na sua casa, na rua, na praça, no trabalho, apenas para observar. Isso até gerou uma boa discussão, até que uma "menina" tentou me convencer que ela faz isso todos os sábados. Quando perguntei como ela faz isso, recebi uma resposta, espantosa: "Eu durmo professor. Durmo sem compromisso de acordar". Devolvi a pergunta: "O que você observa enquanto dorme?". Fiquei sem resposta.
Estou adquirindo e me esforçando para cada vez mais observar. Isso faz um bem danado para minha vida em todos os sentidos. Depois que fiz minha pequena observação. Nem preciso ir atras de respostas. Ela surge.
Parabéns pelo blog. Seu texto é maravilhoso.
Abraço e tenha muitas observações... gostosas e gratificantes em sua vida.

Alloyse, texto irreprochável, como sempre. Aprendi. Vou observar. Principalmente quando você sair voando como a Mary Poppins (rrrsss),

Sigmar Sabin, muito obrigada por suas palavras. Fiquei emocionada! Mais que o elogio, o que me toca é pensar que existem pessoas matutando a mesma coisa que eu. Seus alunos só tem a ganhar! Seja bem-vindo sempre! Abraços.

Anônimo, muito obrigada pelo seu comentário! Rssssss. Saiba que aprendo muito contigo também! Aqueellllleeee abraço!

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