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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Lancheirinha do além!

        Uma das coisas mais notáveis nas mães é que elas sabem coisas sobre você que, nem sempre, você repara. Mães sabem, por exemplo, porque é que você mexe os pés, cruzando os dedos uns sobre os outros. Elas sabem que você não está bem pelo tom da sua voz. Minha vó comentou comigo, uma vez: conheço sua mãe pela respiração. Não duvido!
        Mães comunicam as nossas manias e trejeitos! Comunicam coisas engraçadas a nosso respeito! Comunicam lembranças que não guardamos e momentos que só elas foram capazes de flagrar. Estávamos existindo naquele momento em que elas admiravam nossas pequenas conquistas. Mas, claro, nessa relação não existe apenas a admiração. Existe também muita chatice nos discursos das mães porque, claro, elas querem nos lembrar dos nossos “deveres” até quando somos grandinhos. É que elas acham que nós não escutamos. Bom, nós não escutamos, na maioria das vezes, é um fato. Mas, em vez de economizarem gogó, preferem fazer aqueeeelllle discurso! Rsssss.
        Que o diga minha sobrinha, também conhecida por “saco sem fundo”. O que é isso? É a forma como a minha irmã a chama por causa do “prato” preferido da minha sobrinha: o cheio e repetido! A primeira vez que ouvi isso, falei: “nossa, que mãe chata é você. Deixa a menina comer! Além disso, ela é magra.” Mas, aí veio o argumento: “ela está comendo o almoço e guardando o bife para a segunda rodada e guardando também um pedaço da sobremesa. A comida não vai sumir.”
        Não demorou muito para perceber que “a mãe da sobrinha” estava coberta de razão! Um dia, observei que minha sobrinha almoça como quem escolhe pedras preciosas no leilão da Sotheby´s[1]: quero essa, aquela e ainda vou dar mais por aquela outra. Só que o discurso da minha sobrinha era: “vou pegar aquele bife, aquela mandioquinha e o último pedaço do pudim, tudo depois do primeiro prato, claro!” Rssssss.
        A família hoje sabe que, ao se sentar à mesa, a sobrinha (e neta para meus pais) vai negociar e defender os seus interesses gastronômicos.  O caso virou piada.
        Certa vez, o assunto morte veio à tona em uma refeição. Não era exatamente a morte em si, mas como deve ser “a vida” no pós morte. E aí, “a mãe” da sobrinha brincou: não deve ter comida no céu, Clara. Mas, a gente faz uma lancheirinha do além. Você pode carregar desde já os seus quitutes preferidos e levar junto contigo quando falecer. Mas, te prepara, porque pode demorar uns 90 anos.
        Aí, fiquei imaginando minha sobrinha com 90 anos, carregando uma lancheirinha! Podem ficar tranquilos que não fazemos bullying com a pobre sobrinha. Ela se diverte com a história. Aliás, “vi vantagem” na lancheirinha do além, comentei com minha irmã: olha, eu acho que ela vai ter um tino a mais para os negócios porque se defende um bife assim, imagine o que não fará em uma empresa!
        A lancheirinha é uma metáfora que minha irmã encontrou para falar sobre uma das características mais deliciosas da minha sobrinha: o saber o que quer. E como ela sabe!
        Todos nós temos lembranças de um bonequinho, um lenço ou um “naná” que fez de nós aquele comentário na família e que nem sempre nós gostávamos. Talvez não notamos, mas o que essas pessoas estavam comunicando é o melhor de nós mesmos, visto com uma dose de amor. Porque, você pode nunca ter tido uma lancheirinha do além para levar para o além (rssss), mas tem sua história que, com certeza, foi contada sob muita risada e afeto!








p.s: fiquem tranquilos, esse texto foi aprovado pela minha sobrinha que garante que vai mesmo levar a lancheirinha para o além! Tá garantido!
p.s1: para os chatos de plantão: a imagem não é uma lancheirinha, eu sei! Mas, você levaria só uma lancheirinha para o céu? Eu não!




[1] Uma das mais renomadas casas de leilões do mundo. A sede brasileira fica em São Paulo: http://www.sothebys.com/pt/inside/locations-worldwide/sao-paulo/overview.html

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