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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Da preguiça como método de trabalho

        Uma das obras mais incríveis de Mário Quintana tem o seguinte título: “Da preguiça como método de trabalho.” E, pelo menos na edição que eu tenho, a capa traz a ilustração de um velhinho sentado em uma cadeira ao lado de um cachorro, ambos em uma varanda.
        À primeira vista, o título, e a própria imagem, podem traduzir um sentido de que o poeta e escritor estava naquele estado de “cansaço” da vida por causa dos muitos anos já vividos.
        Mas, ao folhear a obra, o que se encontra são frases, poemas, parágrafos de pura constatação sobre fatos da vida. Páginas e páginas repletas de um humor incrível, evidenciando a lucidez de um “senhor experiente” ao lidar com as “situações” cotidianas. Quintana não tinha preguiça, tinha é sabedoria. E sabia que o uso de poucas palavras poderiam conferir um sentido lógico às coisas, o que, em geral, as pessoas demoram um pouco para constatar. Como, por exemplo: “diálogo: dois monólogos intercalados”. Quintana também conseguia fazer aflorar a beleza presente nas coisas mais simples do dia-a-dia. Por exemplo: “vento, pastor das nuvens.” Não é lindo?
        Toda vez que abro o livro, penso: Quintana tinha um senso de observação muito apurado e usava isso a seu favor. Observar lhe permitia entender as situações dentro de uma ótica peculiar e, que depois de feita uma constatação, era traduzida em um conjunto de palavras deliciosas.
        Não preciso dizer que Quintana toca minha alma toda vez que o leio. Mas, não o cito apenas porque é o meu poeta favorito, mas porque acredito cegamente que a preguiça deveria ser mesmo um método de trabalho. Ele tinha razão!
        E preguiça não deve ser entendida como procrastinação. Nunca fui íntima de Quintana (quem me dera), mas, numa livre interpretação diria que preguiça, para o poeta, seria sinônimo de observação. Se observamos as situações antes de tomar uma decisão ou de interagir –como fazemos num instante de ponderação -  somos capazes de chegar a conclusões, constatações, indagações e até indignações, com muito mais veemência e sem gastar mais energia para isso. Não é preguiçoso quem observa, mas para observar é preciso ter certa preguiça em relação à vida mundana.
        Para observar é preciso sair um pouco do ritmo imediatista imposto nos dias de hoje. É preciso pensar a vida e os diálogos (ou monólogos) com um certo distanciamento. Como quem assa um bolo e espera para ver como fica.
        Por isso que digo, também, que a observação parece aquela peça old fashioned do guarda-roupa. Quando se fala para as pessoas assim: reflita antes de falar, pense um pouco antes de dar respostas, não discuta e tente o diálogo, tudo isso parece coisa de tia velha. Mas, as pessoas têm pressa e observar não parece ser mesmo uma atitude para os dias de hoje. Uma pena! Esses tempos, enquanto eu ministrava um curso, lembro-me de ter dito aos participantes algo assim: não é preciso dar respostas o tempo todo para o que nos perguntam. Pode-se refletir e falar depois. Fiquei surpresa ao ver que essa era uma constatação exclusivamente minha.
        As pessoas têm se tornado imediatistas demais e elas não percebem, mas vão falando todas juntas, sem criar espaços para um diálogo. E mais, já repararam como as pessoas têm respostas prontas para tudo, como se tivessem engolido livros de autoajuda? Se o problema é o namorado, faça isso! Se o problema é dinheiro, faça aquilo! Pessoal, a quem se quer enganar? A vida é cheia de processos que ou se passa tentando digeri-los ou se atropela a vida, como um caminhão desgovernado.
        Depois de trabalhar alguns anos com comunicação assertiva, tenho observado, cada vez mais, a falta de “tranquilidade” das pessoas ao iniciarem um “diálogo”. A minha constatação é: as pessoas falam, falam e falam sem perceber aquilo que estão dizendo. Tem-se escutado cada vez menos e falado cada vez mais. O próximo passo é deixar de se ouvir, se é que isso já não aconteceu. Aliás, será que as pessoas não deixam de escutar os outros ou não prestam atenção nem naquilo que falam porque simplesmente não ouvem quem elas realmente são ou o que desejam?
        Digo-lhes, com humor e sem nenhuma intenção disso parecer uma frase tirada de um best seller de autoajuda: não se predispor a se ouvir custa caro, porque a infelicidade vai lhe levar tudo, até a sua vida, se você permitir. Não ouvir os outros tem um custo muito alto para seus relacionamentos, porque se você não ouve acaba por não interagir direito. E quem não presta atenção naquilo que fala, fatalmente pode falar uma besteira!
         Por isso, acredito que a observação, antes de falar qualquer coisa, ainda é a alma do negócio. Parar para observar faz com que você se escute, escute o outro e não fale o que não vale a pena. Observe, sem pressa. Tenha preguiça dessa correria toda! Tenha preguiça das pessoas que falam e falam e falam!
        Quintana não me fez o convite, mas hoje, gostaria de me se sentar a seu lado em sua varanda (onde quer que ela esteja) para observar, apenas. A preguiça é, sem dúvida, o melhor método de trabalho.








p.s: a Quintana com todo meu amor. E aí vai mais uma dele:



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