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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Aos amigos portugueses!

        Você conhece o Mário? Que Mário? Rsssss. Quem não conhece essa piada vai ficar sem conhecer, porque não sou eu que vou contar! Rssssss.
        Essa é uma brincadeira que fazemos com um amigo português, que trabalha num espaço coworking em Curitiba, junto com um pessoal muito bacana. Claro, a gente não poderia ficar sem fazer piada com o português! Entre as brincadeiras está que a mãe do Mário tem bigodes! Coitado! Honestamente, não sei quantas vezes Mário ouviu a piada do “Mário do armário”, mas foi essa ligação carinhosa - que todos nós do escritório temos - com um estrangeiro, é que levou a criar esse post.
        Nesse escritório, não tem ninguém que não trate o Mário com carinho. Sabe por quê? Além de ser um cara muito legal, os portugueses, como se sabe, são pessoas recebidas, geralmente, com amor no Brasil. E uma das coisas mais deliciosas para um brasileiro é ouvir um português falar! É um jeitinho muito peculiar. Existem palavras diferentes, um sotaque acentuado, uma sonoridade charmosa.
        E, então, um dia, virei para o Mário e disse: precisamos criar um post só para falar sobre como a língua portuguesa estreita as relações entre os dois países. Sei que parece óbvia essa frase, mas não é! O português é uma língua única, com uma versatilidade quase infinita. Brasileiros e portugueses têm um amor incondicional pela fala e a escrita desse idioma.
        Foi que, de umas semanas para cá, a quatro mãos, Brasil e Portugal, representados por pessoas ilustres (desculpa aí, sou a representante modesta do Brasil) sentaram-se na mesma mesa para falarem das peculiaridades da língua. E o que saiu foi o que está abaixo: o resultado de muita conversa, pesquisa e admiração pela própria língua.

        Existem mais ligações entre Brasil e Portugal do que o imaginário possa permitir. Mas, sem sombra de dúvidas, a língua é a mais nítida dessas ligações porque permite, há cinco séculos, criar laços estreitos entre essas duas nações. Lembro-me de ter dito um dia ao Mário: você sabia que da língua viemos e para a língua iremos? Toda relação do Brasil e Portugal, do passado ao futuro, passa pela língua. Mário, concordou. E, então, me lembrei de uma frase que está cravada na entrada da capela dos ossos, em Évora, Portugal: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos". Eu sei que a frase parece fúnebre, mas há profundidade e verdade nela. A capela, construída no século XVII, foi elaborada com uma mistura de ossos trazidos de cemitérios e também de conventos de todos os cantos de Portugal.  O intuito de se construir uma capela “sustentada” por caveiras é o de lembrar que a vida é apenas um momento, uma passagem, e que, cedo ou tarde, qualquer um se transformará em ossos e depois em pó. É evidente que, ao entrar num local como esse ninguém se livra de uma reflexão em torno do que se faz com essa “passagem” pela vida.
        Essa “mensagem” pode ser a mais evidente na frase da Capela. Mas, também gosto de fazer outra analogia. Acredito que também permite a interpretação das mudanças da vida e sobre o fluxo e refluxo dos movimentos que, nós humanos, fazemos. E como essas mudanças também interferem no desenvolvimento da língua.
        Assim como ocorre na vida, a língua portuguesa, ao longo dos séculos, passou por inúmeras transformações, principalmente ao se “juntar” inúmeras vezes a outros idiomas. Fez surgir, portanto, novas maneiras de “soar” o português. Estudiosos afirmam que a língua se originou do latim vulgar, no Norte de Portugal, tendo sido “entendida” como uma “língua” por volta do ano 1100 d.C. E quantas mudanças ocorreram a partir de então!  
        Uma língua por si só já sofre transformações necessárias impostas pelas adaptações do tempo. No Brasil, o português está e sempre esteve passando por essas modificações. É isso que é chamado de transitoriedade da língua. E que delícia são essas mudanças, principalmente quando se vê semelhanças e diferenças no falar de brasileiros e portugueses.
        Brinco que línguas funcionam mais ou menos como bolas de sabão que, quando assopradas meio forte podem se unir. E se isso acontece, uma bolha maior se forma dando uma nova forma às pequenas bolas.
        Aqui no Brasil, todos sabem que a primeira comunicação escrita feita em solo brasileiro, utilizando a língua portuguesa, foi a carta de Pero Vaz de Caminha, denominada Carta do Achamento do Brasil. Achamento? Isso mesmo! Hoje, essa palavra não tem o menor cabimento, mas, em 1.500, deveria ser bastante usual.
        Particularmente, acredito que o presente mais importante e bonito que Portugal teria dado ao Brasil é a própria língua. Está-se tão acostumado a falar que não se percebe a sonoridade do português, uma língua complexa e ao mesmo tempo suave! Os nativos portugueses ainda têm o gosto a mais da pronúncia graciosa, que permite tornar qualquer frase charmosa. Além de expressões tão peculiares, que às vezes soam de maneira intrigante na primeira vez em que são ouvidas. Quer um exemplo? Portugueses não falam “alô” ao telefone. Só falam: “Tou, sim”.
        Esse jeitinho de falar também foi adotado por nós, brasileiros, principalmente no campo da sonoridade. Os moradores do estado de Santa Catarina, por exemplo, receberam uma influência açoriana ao falar. É o sotaque como herança.
        Mas, não foi apenas o português falado que os cidadãos daqui receberam influência. Muito antes de se ter noção do que era a literatura portuguesa, os brasileiros foram apresentados a poemas e outras formas de escrita trazidas ainda pelos jesuítas, entre eles, Padre Manuel da Nóbrega, Padre Anchieta e Padre António Viera.
        Com o passar dos séculos (eu sei que vou dar um salto na história), não foram só os escritos religiosos que conquistaram os brasileiros. A literatura portuguesa se fez presente em quase todas as fases da evolução da literatura brasileira. Escritores como Camões, Bocage, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Florbela Espanca, Fernando Pessoa (e seus heterônimos mais conhecidos), José Saramago, foram lidos, comentados, inspirados também por escritores, artistas e cidadãos das terrinhas daqui.
        E, claro, essa troca foi justa. Inúmeros escritores brasileiros ficaram conhecidos em Portugal e hoje são, igualmente, admirados. E apesar das diferenças entre os dois países, ambos fizeram várias trocas culturais durante séculos. E construíram, juntos, um vínculo que se iniciou por meio da língua.
        A música, por exemplo, é uma via de mão dupla entre os dois países. Assim como o Fado é bastante admirado pelos brasileiros -  ainda que não se perceba essa influência direta na música popular -  os cantores brasileiros também fazem sucesso na terra de Camões. Caetano, Chico, Daniela Mercury, Ivete Sangalo e mais cantores da MPB são profundamente respeitados pelos portugueses.

        E é justamente com Chico que termino falando sobre a língua portuguesa. Esse vídeo é um comentário do artista sobre a música Tanto Mar, que fez para o 25 de Abril de 1974 (Revolução dos Cravos em Portugal). Demonstra, portanto, esse carinho entre os moradores dos dois países. E mostra que a língua é o meio máximo de expressão de um povo. Ou de dois! 








p.s: gostaria de agradecer a participação do amigo português, Mario João Silva, que teve a gentileza de trocar ideias a respeito da língua, dos costumes portugueses.
O Mário João veio da Trofa, Norte de Portugal, mora no Brasil há 10 anos e é gerente de negócios da multinacional portuguesa ManWinWin Software.



p.s1: Não há nenhuma intenção de fazer um cronograma sobre a história de Brasil e Portugal. Mas, de dizer como a língua portuguesa permitiu transformar os dois países ao longo dos séculos.
p.s2: esse post é dedicado, com carinho, a todos os portugueses que têm acessado esse blog e que, apesar de Tanto Mar entre nós, sempre se fazem presentes, trazendo informações relevantes. Sejam sempre bem-vindos!

9 comentários:

Um olhar apaixonado... e que leitura gostosa!

Parabéns Alloyse e Mário pela sensibilidade do "contiúdo!"

Tenho um tio que é Portuga. Lendo este texto lembrei de uma nota de mil escudos que ele deu a mim quando eu era pirralho.

Deliciosa leitura. Parabéns Alloyse. O " contiúdo" da sua matéria é muito bom.

Erica, querida. Dois apaixonados pela mesma língua!! Que bom que gostou!!!

Obrigada, Rogério. Estendo os parabéns ao Mário também! :)

Obrigada, Márcio. Seja bem-vindo sempre!

Belo texto, apaixonado e gentil argumento.
Mas, por dever da verdade e respeito à nossa diversidade linguística e riqueza cultural, não devemos esquecer que os brasileiros não falam só o português. Segundo o censo de 2010 os brasileiros falam 274 línguas diferentes entre as etnias nativas – entre elas há os falantes do alemão (Hunsrückisch),e italiano (Talian, de origem vêneta) e Pomerode. Mais de 17% da população Brasileira não fala português. E, se formas levar em conta a história, veremos que o português não foi bem um presente de Portugal.
Nos primeiros dois séculos após a chegada de Cabral, o que se falava por aqui, dentre tantas língua de cultura e povos diversos, o tupim, tida como língua geral e falada inclusive pelos portugueses, dentre eles os jesuítas.

O idioma dos colonizadores só conseguiu impor-se no litoral no século XVII e, no interior, no século XVIII. Em São Paulo, até o começo do século passado, era possível escutar alguns caipiras contando casos em língua indígena. No Pará, os caboclos conversavam em nheengatu até os anos 40. Era o idioma do povo, enquanto o português ficava para os governantes e para os negócios com a metrópole. http://super.abril.com.br/cultura/lingua-brasil-437755.shtml.

O português falado no Brasil é “hibrido”, daí a sua singeleza de sotaque e musicalidade, pois carrega os ritmos e as cores das culturas que se deixou mesclar. Aqui, no Brasil, o Português se enriqueceu, tornou-se maleável, musicado e includente. Foi capaz de se deixar impregnar pela musicalidade de sotaques nativos e africanos. Hoje falamos todos os dias algumas das 10 000 palavras que o tupi nos legou, sem falar nas palavras das línguas Africanas – milhares delas nos dando significado, sentido e identidade, em que pese os séculos de extermínio dos povos nativos e dos africanos aqui escravizados.

Somos um país multicultural e diverso, o português é um dos seus elementos apenas. Uma língua única. Genuinamente brasileira, com berço português.
Abs,
Cácia

Cácia, querida.
Suas observações são muito bem-vindas e obrigada por fazê-las e todos nós. Mas, gostaria de esclarecer que quis fazer uma licença poética e agradar nossos amigos portugueses. Com todo respeito, ao português brasileiro! Abraços.

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