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Conheça os benefícios de uma comunicação mais eficiente.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Momento espelho!

        
          Tenho um parente que fala assim: “estou naquele momento espelho”. A primeira vez que ouvi isso, achei estranho e perguntei: “o que é isso”? E, então, o parente disse: “é quando eu reflito sobre as coisas”. Achei engraçadíssimo!
        E, então, adotei a máxima: em qualquer ocasião que se é necessário refletir sobre algo, existe o “momento espelho”. E o momento espelho é completamente estendido também à comunicação.
        Na maioria dos cursos que dou, brinco com os participantes: “olha, a partir de hoje vamos começar a praticar a comunicação de uma maneira diferente. Vamos entender que tudo aquilo que falamos é responsabilidade nossa mesma - o que os outros entendem é problema dos outros, mas o que falamos é problema nosso - e que não é nosso diabinho interno que deixa escapar aquela frase mal colocada!” A maioria, no começo, leva a afirmação na brincadeira, mas logo, logo percebe que a brincadeira é coisa séria.
         Acredito que as pessoas realmente têm boa vontade na hora de se comunicar uns com os outros. No entanto, como um mal que possa acometer a quase todo mundo, aos poucos – e talvez com a natural intimidade – as pessoas deslizam na maneira como se comunicam. Entenda “deslize” como uma série de dificuldades comunicativas.
        A principal delas é, sem dúvida, não ter consciência daquilo que se está falando. Acredito que você, leitor, já deve ter reparado que, de vez em quando, observa alguém do seu escritório ou da sua casa falando desaforos, coisas “atravessadas” ou passando do ponto por pouco. E ainda complementa: “pronto, falei”.
        Comunicar não é uma arte e não é necessário ser o Chacrinha para se comunicar bem com os outros ou, até mesmo, exercer a persuasão. Mas, é preciso ser alguém que pratique o respeito em qualquer situação dialógica. Respeito mesmo! E é aí que entra a consciência. Como irá respeitar alguém se não presta atenção naquilo que fala? Onde está sua consciência nessas horas?
        Muita gente pode justificar-se em virtude das tensões do dia a dia ou considerar uma situação ruim que passou para lançar aos outros provocações, ataques gratuitos, críticas improdutivas ou ofensas diretas ou indiretas de qualquer ordem. Mas, pense um pouco: se você precisa metralhar palavras ruins aos ventos é preciso admitir que algo dentro de você não está bem, mesmo que você não saiba disso. Além disso, se você não está bem e despeja palavras ruins, isso não melhora seu estado de espírito. Melhora? Talvez piore, porque poderá contaminar os demais com sua insatisfação. E, só porque você não está bem, se sente no direito de falar ou julgar ou ainda irritar os outros? Que egoísmo!
        E, nessas horas, o mais curioso é que, em geral, quem faz uma ofensa ou desaforo não tem a mesma coragem para pedir desculpas. Ou se ofende quando alguém retruca ou lhe coloca em seu lugar. Mas, é que você se esquece de que alguém, assim como você, também pode estar no seu mal dia e também não saiba dominar o seu diabo interno. Veja só que coincidência! Ou melhor, alguém que está em seu ótimo dia vai lhe mostrar o seu diabinho para você!
        Quando se diz algo pesado ou uma ofensa, existem, em geral, duas opções: refletir um pouco sobre o que você está sentindo, antes e depois de abrir a boca, ou culpar o outro pelo seu mal dia, que já estava mal antes de você dialogar.
        Você pode domar esse diabinho que tanto lhe atrapalha. Não seria o momento de se recolher para observar o que lhe está causando angústia ou qualquer outro mal? Ou você não pratica o “momento espelho”? Sugiro que se olhe no espelho - sim, porque é um momento literalmente de reflexão -  e questione o que você está sentindo e por que você está sentindo aquilo. Ou, por que você não está feliz com o seu trabalho, casamento ou amigo ou conta bancária? Não importa! Cada um tem um desafio diferente, todos os dias. Mas, não olhar com dignidade para os desafios só acaba por refletir numa fala pesada, carregada de sentimentos confusos.
        E, então, diagnostique seus sentimentos, sem medo do que vai encontrar! Feito isso, é hora de separar o joio do trigo. Ou melhor, entender que você está tendo esse sentimento, mas os outros não.  Certifique-se que, mesmo que não consiga resolver o seu problema imediatamente, que você irá “domar” seu diabinho e que não irá descontar em ninguém suas aflições. Afinal, deve haver algum amigo que possa ouvir com amor e coração aberto as suas angústias, após o expediente. Então, não existe motivo para metralhar chatices!
        E, mais: se você estiver em um dia tão ruim que tem vontade de sair chorando no meio da rua, indico-lhe uma atitude muito simples e muito valiosa: ajude alguém! Abrace uma criança, ajude um velhinho a atravessar a rua, alimente a quem precisa ou escute os problemas da sua colega de mesa, no trabalho. Ajudar aos outros, principalmente quando precisamos de ajuda, não é só um sinal de altruísmo! É uma maneira de ajudar a nós mesmos, porque somos capazes de perceber que nossos problemas não são assim tão ruins quanto parecem. E que, se olharmos com amor e fé para nós mesmos, ainda somos capazes de ser pessoas mais humanas!
        E, naquele “momento espelho”, você passa da raiva para a bondade! E, agora sim, é capaz de ver exatamente aquilo que queria ver refletida no espelho: o amor! Pensando bem, esse momento espelho não é ruim! Basta refletir um pouco!





quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Chico e seus amores!

                Chico Buarque é um caminho sem volta pela alma feminina. Digam o que quiser os homens, mas não há homem como o Chico! Ele não apenas traduz uma sensibilidade que só as mulheres têm quando o assunto é o coração, como também expõe, sem ser piegas, as fragilidades do amor feminino.
        Não é que os homens não amam como as mulheres, mas poucos são capazes de assumir aquilo que o coração deseja. E Chico fez (e ainda faz) letras que mostram esse lado da mulher que não podia ser mostrado porque era coisa de mulher. Que machismo!
      Deus me livre classificar Chico Buarque como um cantor romântico. Não é isso. Todos sabem que, como uns dos artistas mais renomados em todo país e mesmo no mundo, Chico escreveu sobre inúmeras temas, não apenas sobre o amor. Foi revolucionário, criou letras sobre a cultura, sobre a miséria humana, sobre comportamentos. Mas, particularmente, acredito que é na hora de falar do amor ou da falta dele, que Chico mostra porque é Chico Buarque.
        Resolvi homenagear o Chico porque, convenhamos, não há letra mais ou menos criada por esse moço que tem um incrível par de olhos cor de ardósia. Todas as músicas de Chico tocam ou de alguma maneira alcançam até os mais peludos dos corações. E, depois de semanas atrás, quando ouvi “Tanto Mar” por mais de 20 vezes para a criação do texto sobre a língua portuguesa, pensei: ah, Chico, você também merece um post!
        E, depois de analisar como falar de Chico Buarque – sim, porque seria um post sem fim se eu escolhesse falar sobre todas as obras do Chico – optei para falar das músicas que tratam do amor ou da dor de cotovelo. Como conheço uma especialista em Chico, minha irmã, convidei-a para participar desse post.
        Acredito que vocês vão gostar. A seleção está ótima. Pelo menos, para nós!



        Digo que amor é aquela coisa que nasce da displicência. Seja honesto, ninguém ama ninguém na primeira olhada. Particularmente, já me senti atraída por alguém na primeira olhada. Mas, dizer que amei seria uma mentira. Mas, depois que se começa a reparar no outro, como as coisas mudam. Quando menos se espera está lá você pensando na pessoa que até ontem não fazia muita diferença na sua vida. O amor é um trem louco que não se sabe bem o que vai dar (aliás, a gente nunca sabe o que vai dar), mas que, por algum motivo qualquer, aquilo lhe dá um frio na barriga começa, aos poucos, a se tornar tão importante quanto aquele projeto novo no trabalho. E, com o tempo, se pensa: que se dane o projeto, tenho outras coisas a pensar. E aí, você se acostuma com aquela pessoa que chamou de “amor” e não consegue mais ficar sem. Ou chega um dia em que se diz: olha, posso ficar sem. É quando o amor morre. E todas as certezas somem na primeira briga ou na centésima e aí, o amor muda de tamanho. Mas, se durar é porque o amor é capaz de ser mais firme do que os problemas causados por ele.
        Enfim, amor é essa profusão de sentimentos, muitas vezes confusos, sobre aquilo que não se sabe exatamente o que se sente pelo outro, mesmo que se esteja repleto de certezas. Esse é o amor, para mim, claro. Para Chico Buarque, o amor é algo bem mais denso, complexo e tem muitas mais fases do que essas que expus aí em cima. Meu olhar vai parecer bem simplista perto do de Chico. Não tem problema. Já fiz isso de propósito, porque deixo para Chico mostrar os lados de seu coração.
        E, se fosse possível fazer uma ordem cronológica do amor, diria que ele, geralmente, começa com algo mais inocente. Como o amor de João e Maria.




                Também poderia começar de uma maneira despretensiosa, do tipo, ah, fica aí, vai:






        Mas, Chico parece não gostar de dividir seu amor com ninguém. Esse negócio de amor sem compromisso não é para ele não. Como diz Chico: é bom acabar com isso!





                E aí, quando se viu, pronto. Já se está apaixonado. E aí, começa o “amor cego”, que é quando se está tão inserido no contexto do outro que a realidade alheia e os problemas se tornam seus. E os defeitos do outro são compreendidos. E tudo se faz com açúcar e com afeto.






                E aí, em algum momento, amor e dependência podem caminhar pelo mesmo caminho. Chico dizia que o amor pode ficar no corpo como tatuagem ou como ferida mesmo. Mas, no fundo tem quem “gostas”.




       

        Chico também gosta de um amor provocante. Aquele que a cama dá um jeito em qualquer coisa e ainda passa por cima de qualquer situação. O que vale não são as palavras que o(a) amado(a) possa dizer, mas algo que lhe rouba os sentidos.





                 E, claro, uma hora Chico iria parar de duvidar do amor verdadeiro. E, encontraria aquele que não faz sentido e não exige explicação. E, por isso mesmo, é amor! Ou o que será?





        Mas, como tudo na vida, o amor também vira rotina.





               
        Mas, existe algo no amor que faz com que ele supere qualquer coisa. E, que nenhum cotidiano é capaz de abalar ou o tempo desfazer. O amor pode ser uma valsinha.






        É... mas, infelizmente, o amor nem sempre resiste a tudo. E qualquer desatenção pode ser a gota d´água.





                E, quando se chega a acreditar que já não há mais nada para ser resgatado, uma tristeza imensa invade o coração. O amor se foi. O problema não é que qualquer coisa possa virar uma gota d´água, mas a certeza de que se já vai tarde:





                 E aí, existem alguns caminhos. Ficar remoendo um rancor da pessoa que se foi, tentando achar sentido na própria realidade:






        Ou então jogar a última pá de cal e enterrar aquele amor que você já não sabia se era mesmo amor. E, mesmo os que se permitem ao amor novamente têm o prazer de dizer: “quero ver como suporta me ver tão feliz”.







        E chega uma hora que nada mais disso faz sentido.  Um novo amor entra no seu coração e o passado azedo não deixa mais o sabor do rancor. Rancor pra quê, se é possível amar?







                Ah, o amor. O que seríamos sem ele, não é mesmo, Chico?





Para quem curte Chico, um site imperdível:  http://www.chicobuarque.com.br/




p.s: gostaria de agradecer a colaboração da minha amável irmã mais nova, Dellyana. Além de ser a caçula e a gente esmagá-la como felícia, é também linda e inteligente!! Ah, esqueci de dizer que é doutora em genética (coisa para poucos) e é a médica da família, mesmo sendo apenas bióloga. É mãe de Clara, uma miniatura da nossa caçulinha. Não preciso dizer que é tão amada quanto a mãe dela. Obrigada, pequena por conhecer tão bem Chico. Amamos você muito, do tipo, com açúcar e com afeto!

p.s1: pessoal, sei que inúmeras músicas bacanas do Chico ficaram de fora. Então, mande o link da sua música preferida e que fale de amor e coloque abaixo, nos comentários. 

p.s2: oh, gente, tem várias músicas em que há o comentário do Chico, como se fossem partes de um documentário.  Preservei esse comentários porque acho para lá de interessantes!

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Da preguiça como método de trabalho

        Uma das obras mais incríveis de Mário Quintana tem o seguinte título: “Da preguiça como método de trabalho.” E, pelo menos na edição que eu tenho, a capa traz a ilustração de um velhinho sentado em uma cadeira ao lado de um cachorro, ambos em uma varanda.
        À primeira vista, o título, e a própria imagem, podem traduzir um sentido de que o poeta e escritor estava naquele estado de “cansaço” da vida por causa dos muitos anos já vividos.
        Mas, ao folhear a obra, o que se encontra são frases, poemas, parágrafos de pura constatação sobre fatos da vida. Páginas e páginas repletas de um humor incrível, evidenciando a lucidez de um “senhor experiente” ao lidar com as “situações” cotidianas. Quintana não tinha preguiça, tinha é sabedoria. E sabia que o uso de poucas palavras poderiam conferir um sentido lógico às coisas, o que, em geral, as pessoas demoram um pouco para constatar. Como, por exemplo: “diálogo: dois monólogos intercalados”. Quintana também conseguia fazer aflorar a beleza presente nas coisas mais simples do dia-a-dia. Por exemplo: “vento, pastor das nuvens.” Não é lindo?
        Toda vez que abro o livro, penso: Quintana tinha um senso de observação muito apurado e usava isso a seu favor. Observar lhe permitia entender as situações dentro de uma ótica peculiar e, que depois de feita uma constatação, era traduzida em um conjunto de palavras deliciosas.
        Não preciso dizer que Quintana toca minha alma toda vez que o leio. Mas, não o cito apenas porque é o meu poeta favorito, mas porque acredito cegamente que a preguiça deveria ser mesmo um método de trabalho. Ele tinha razão!
        E preguiça não deve ser entendida como procrastinação. Nunca fui íntima de Quintana (quem me dera), mas, numa livre interpretação diria que preguiça, para o poeta, seria sinônimo de observação. Se observamos as situações antes de tomar uma decisão ou de interagir –como fazemos num instante de ponderação -  somos capazes de chegar a conclusões, constatações, indagações e até indignações, com muito mais veemência e sem gastar mais energia para isso. Não é preguiçoso quem observa, mas para observar é preciso ter certa preguiça em relação à vida mundana.
        Para observar é preciso sair um pouco do ritmo imediatista imposto nos dias de hoje. É preciso pensar a vida e os diálogos (ou monólogos) com um certo distanciamento. Como quem assa um bolo e espera para ver como fica.
        Por isso que digo, também, que a observação parece aquela peça old fashioned do guarda-roupa. Quando se fala para as pessoas assim: reflita antes de falar, pense um pouco antes de dar respostas, não discuta e tente o diálogo, tudo isso parece coisa de tia velha. Mas, as pessoas têm pressa e observar não parece ser mesmo uma atitude para os dias de hoje. Uma pena! Esses tempos, enquanto eu ministrava um curso, lembro-me de ter dito aos participantes algo assim: não é preciso dar respostas o tempo todo para o que nos perguntam. Pode-se refletir e falar depois. Fiquei surpresa ao ver que essa era uma constatação exclusivamente minha.
        As pessoas têm se tornado imediatistas demais e elas não percebem, mas vão falando todas juntas, sem criar espaços para um diálogo. E mais, já repararam como as pessoas têm respostas prontas para tudo, como se tivessem engolido livros de autoajuda? Se o problema é o namorado, faça isso! Se o problema é dinheiro, faça aquilo! Pessoal, a quem se quer enganar? A vida é cheia de processos que ou se passa tentando digeri-los ou se atropela a vida, como um caminhão desgovernado.
        Depois de trabalhar alguns anos com comunicação assertiva, tenho observado, cada vez mais, a falta de “tranquilidade” das pessoas ao iniciarem um “diálogo”. A minha constatação é: as pessoas falam, falam e falam sem perceber aquilo que estão dizendo. Tem-se escutado cada vez menos e falado cada vez mais. O próximo passo é deixar de se ouvir, se é que isso já não aconteceu. Aliás, será que as pessoas não deixam de escutar os outros ou não prestam atenção nem naquilo que falam porque simplesmente não ouvem quem elas realmente são ou o que desejam?
        Digo-lhes, com humor e sem nenhuma intenção disso parecer uma frase tirada de um best seller de autoajuda: não se predispor a se ouvir custa caro, porque a infelicidade vai lhe levar tudo, até a sua vida, se você permitir. Não ouvir os outros tem um custo muito alto para seus relacionamentos, porque se você não ouve acaba por não interagir direito. E quem não presta atenção naquilo que fala, fatalmente pode falar uma besteira!
         Por isso, acredito que a observação, antes de falar qualquer coisa, ainda é a alma do negócio. Parar para observar faz com que você se escute, escute o outro e não fale o que não vale a pena. Observe, sem pressa. Tenha preguiça dessa correria toda! Tenha preguiça das pessoas que falam e falam e falam!
        Quintana não me fez o convite, mas hoje, gostaria de me se sentar a seu lado em sua varanda (onde quer que ela esteja) para observar, apenas. A preguiça é, sem dúvida, o melhor método de trabalho.








p.s: a Quintana com todo meu amor. E aí vai mais uma dele:



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Aos amigos portugueses!

        Você conhece o Mário? Que Mário? Rsssss. Quem não conhece essa piada vai ficar sem conhecer, porque não sou eu que vou contar! Rssssss.
        Essa é uma brincadeira que fazemos com um amigo português, que trabalha num espaço coworking em Curitiba, junto com um pessoal muito bacana. Claro, a gente não poderia ficar sem fazer piada com o português! Entre as brincadeiras está que a mãe do Mário tem bigodes! Coitado! Honestamente, não sei quantas vezes Mário ouviu a piada do “Mário do armário”, mas foi essa ligação carinhosa - que todos nós do escritório temos - com um estrangeiro, é que levou a criar esse post.
        Nesse escritório, não tem ninguém que não trate o Mário com carinho. Sabe por quê? Além de ser um cara muito legal, os portugueses, como se sabe, são pessoas recebidas, geralmente, com amor no Brasil. E uma das coisas mais deliciosas para um brasileiro é ouvir um português falar! É um jeitinho muito peculiar. Existem palavras diferentes, um sotaque acentuado, uma sonoridade charmosa.
        E, então, um dia, virei para o Mário e disse: precisamos criar um post só para falar sobre como a língua portuguesa estreita as relações entre os dois países. Sei que parece óbvia essa frase, mas não é! O português é uma língua única, com uma versatilidade quase infinita. Brasileiros e portugueses têm um amor incondicional pela fala e a escrita desse idioma.
        Foi que, de umas semanas para cá, a quatro mãos, Brasil e Portugal, representados por pessoas ilustres (desculpa aí, sou a representante modesta do Brasil) sentaram-se na mesma mesa para falarem das peculiaridades da língua. E o que saiu foi o que está abaixo: o resultado de muita conversa, pesquisa e admiração pela própria língua.

        Existem mais ligações entre Brasil e Portugal do que o imaginário possa permitir. Mas, sem sombra de dúvidas, a língua é a mais nítida dessas ligações porque permite, há cinco séculos, criar laços estreitos entre essas duas nações. Lembro-me de ter dito um dia ao Mário: você sabia que da língua viemos e para a língua iremos? Toda relação do Brasil e Portugal, do passado ao futuro, passa pela língua. Mário, concordou. E, então, me lembrei de uma frase que está cravada na entrada da capela dos ossos, em Évora, Portugal: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos". Eu sei que a frase parece fúnebre, mas há profundidade e verdade nela. A capela, construída no século XVII, foi elaborada com uma mistura de ossos trazidos de cemitérios e também de conventos de todos os cantos de Portugal.  O intuito de se construir uma capela “sustentada” por caveiras é o de lembrar que a vida é apenas um momento, uma passagem, e que, cedo ou tarde, qualquer um se transformará em ossos e depois em pó. É evidente que, ao entrar num local como esse ninguém se livra de uma reflexão em torno do que se faz com essa “passagem” pela vida.
        Essa “mensagem” pode ser a mais evidente na frase da Capela. Mas, também gosto de fazer outra analogia. Acredito que também permite a interpretação das mudanças da vida e sobre o fluxo e refluxo dos movimentos que, nós humanos, fazemos. E como essas mudanças também interferem no desenvolvimento da língua.
        Assim como ocorre na vida, a língua portuguesa, ao longo dos séculos, passou por inúmeras transformações, principalmente ao se “juntar” inúmeras vezes a outros idiomas. Fez surgir, portanto, novas maneiras de “soar” o português. Estudiosos afirmam que a língua se originou do latim vulgar, no Norte de Portugal, tendo sido “entendida” como uma “língua” por volta do ano 1100 d.C. E quantas mudanças ocorreram a partir de então!  
        Uma língua por si só já sofre transformações necessárias impostas pelas adaptações do tempo. No Brasil, o português está e sempre esteve passando por essas modificações. É isso que é chamado de transitoriedade da língua. E que delícia são essas mudanças, principalmente quando se vê semelhanças e diferenças no falar de brasileiros e portugueses.
        Brinco que línguas funcionam mais ou menos como bolas de sabão que, quando assopradas meio forte podem se unir. E se isso acontece, uma bolha maior se forma dando uma nova forma às pequenas bolas.
        Aqui no Brasil, todos sabem que a primeira comunicação escrita feita em solo brasileiro, utilizando a língua portuguesa, foi a carta de Pero Vaz de Caminha, denominada Carta do Achamento do Brasil. Achamento? Isso mesmo! Hoje, essa palavra não tem o menor cabimento, mas, em 1.500, deveria ser bastante usual.
        Particularmente, acredito que o presente mais importante e bonito que Portugal teria dado ao Brasil é a própria língua. Está-se tão acostumado a falar que não se percebe a sonoridade do português, uma língua complexa e ao mesmo tempo suave! Os nativos portugueses ainda têm o gosto a mais da pronúncia graciosa, que permite tornar qualquer frase charmosa. Além de expressões tão peculiares, que às vezes soam de maneira intrigante na primeira vez em que são ouvidas. Quer um exemplo? Portugueses não falam “alô” ao telefone. Só falam: “Tou, sim”.
        Esse jeitinho de falar também foi adotado por nós, brasileiros, principalmente no campo da sonoridade. Os moradores do estado de Santa Catarina, por exemplo, receberam uma influência açoriana ao falar. É o sotaque como herança.
        Mas, não foi apenas o português falado que os cidadãos daqui receberam influência. Muito antes de se ter noção do que era a literatura portuguesa, os brasileiros foram apresentados a poemas e outras formas de escrita trazidas ainda pelos jesuítas, entre eles, Padre Manuel da Nóbrega, Padre Anchieta e Padre António Viera.
        Com o passar dos séculos (eu sei que vou dar um salto na história), não foram só os escritos religiosos que conquistaram os brasileiros. A literatura portuguesa se fez presente em quase todas as fases da evolução da literatura brasileira. Escritores como Camões, Bocage, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Florbela Espanca, Fernando Pessoa (e seus heterônimos mais conhecidos), José Saramago, foram lidos, comentados, inspirados também por escritores, artistas e cidadãos das terrinhas daqui.
        E, claro, essa troca foi justa. Inúmeros escritores brasileiros ficaram conhecidos em Portugal e hoje são, igualmente, admirados. E apesar das diferenças entre os dois países, ambos fizeram várias trocas culturais durante séculos. E construíram, juntos, um vínculo que se iniciou por meio da língua.
        A música, por exemplo, é uma via de mão dupla entre os dois países. Assim como o Fado é bastante admirado pelos brasileiros -  ainda que não se perceba essa influência direta na música popular -  os cantores brasileiros também fazem sucesso na terra de Camões. Caetano, Chico, Daniela Mercury, Ivete Sangalo e mais cantores da MPB são profundamente respeitados pelos portugueses.

        E é justamente com Chico que termino falando sobre a língua portuguesa. Esse vídeo é um comentário do artista sobre a música Tanto Mar, que fez para o 25 de Abril de 1974 (Revolução dos Cravos em Portugal). Demonstra, portanto, esse carinho entre os moradores dos dois países. E mostra que a língua é o meio máximo de expressão de um povo. Ou de dois! 








p.s: gostaria de agradecer a participação do amigo português, Mario João Silva, que teve a gentileza de trocar ideias a respeito da língua, dos costumes portugueses.
O Mário João veio da Trofa, Norte de Portugal, mora no Brasil há 10 anos e é gerente de negócios da multinacional portuguesa ManWinWin Software.



p.s1: Não há nenhuma intenção de fazer um cronograma sobre a história de Brasil e Portugal. Mas, de dizer como a língua portuguesa permitiu transformar os dois países ao longo dos séculos.
p.s2: esse post é dedicado, com carinho, a todos os portugueses que têm acessado esse blog e que, apesar de Tanto Mar entre nós, sempre se fazem presentes, trazendo informações relevantes. Sejam sempre bem-vindos!