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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Sobre aquilo que sentimos!

        Esses dias li uma frase em um livro que foi a comprovação de algo que eu desconfiava há muitos anos: não somos ensinados a olhar para os nossos sentimentos até que eles comecem a nos sufocar.
        De uns anos para cá, comecei a observar mais a fundo as conversas que tenho tido com amigos e também conhecidos (e até mesmo com estranhos). Como estudiosa da linguagem, sei que existe um canhão de desejos e sentimentos que ficam evidenciados quando falamos, mesmo quando não queremos mostrá-los. E, então, passei a observar mais os discursos das pessoas, não com o intuito de chegar a alguma conclusão ou encontrar “a verdade” (mesmo porque verdade não existe. Existem pontos de vista sobre a vida) Enfim, queria observar, apenas.
        E, então, quando alguém me contava uma história, ao final (quando sentia que não seria muito invasiva) perguntava: como você está se sentindo com isso? A maioria respondia: não sei! A pessoa não sabia mesmo, não era preguiça da sua parte. Simplesmente não sabia o que fazer com aquele sentimento. Não havia adjetivos para ele.
        Observei também que muitas pessoas tinham vergonha de ter um sentimento. Então, por exemplo, quando eu perguntava: você ficou chateada(o) com essa história toda? A pessoa me respondia: imagina, eu não!
        E comecei a questionar o porquê um sentimento deveria ser escondido para nós mesmos. O que nos faz ficar vivos são nossos sentimentos! Não saímos de casa e deixamos nossos sentimentos no guarda-roupa. Não à toa, às vezes chegamos ao trabalho com uma cara não muito boa. E naquele dia alguém pergunta: aconteceu alguma coisa? E só aconteceu porque estamos sentindo algo. Parece óbvio isso, não? Mas, no dia a dia, nem sempre identificamos nossos sentimentos.
        Uma amiga me falou que se ela contasse todos os sentimentos dela no trabalho temia ser mandada embora. Eu disse, mas por que você precisa contar? Acredito que os ruídos de comunicação acontecem por vários motivos, mas um deles, sem sombra de dúvidas, é quando não sabemos o que estamos sentindo e queremos verbalizá-los. Estamos bravos com o trabalho? Com o cliente? Com os colegas? Com a família? Com os quilinhos a mais? E aí, como somos relacionais e no Brasil tendemos a contar nossa vida pessoal para os colegas de trabalho, achamos que eles também têm que nos ajudar a resolver nossos problemas pessoais. No trabalho, qual é o sentimento com o trabalho? No relacionamento, qual é o nosso sentimento com a pessoa com quem nos relacionamos?
        Acredito que não precisamos expressar nossos sentimentos o tempo todo. Nem seria viável. Mas, que tal identificá-los?
        Uma vez ouvi de uma pessoa assim: se eu fosse lhe contar todos os meus sentimentos acredito que não seríamos mais amigos. E, então lhe disse: perfeito! Agora eu sei o que sente por mim e não precisa esconder os seus sentimentos mais para você, porque para mim eles estão nítidos.
        Eu já escutei tanto sobre sentimentos nesses últimos anos, mas um tipo de sentimento me chama muito a atenção: o que as pessoas esperam que você seja por elas. E, então, identifiquei que esse é um método bastante doloroso de pedir ajuda, já que, em geral, afasta as pessoas. Se você não identifica um sentimento é possível que exija do outro que ele identifique o que você está sentindo. É bastante injusto porque como é que podemos saber o que se passa na cabeça de outra pessoa?
        E é aí que repito: que tal identificar o que estamos sentindo? É claro que não temos sentimentos nobres sempre. Aliás, não temos sentimentos nobres muitas vezes ao longo de um dia. Mesmo assim, em vez de fugir dos meus sentimentos, entendi que estava na hora de entendê-los. Mesmo os menos legais, comecei a observar e não julgá-los mais. E mais: comecei a anotar que sentimento existia em determinado momento para ver se era recorrente. Foi aí que percebi que o que sentia podia ser passageiro ou não, dependia do que eu gostaria de fazer com aquele sentimento. E para isso é preciso se despir para você mesmo, com a certeza de que o que vá encontrar pode não ser bom.
        Foram anos sondando os meus sentimentos e os dos outros e então, não cheguei a conclusão alguma. Sabe por quê? Sentimentos não são exatamente conclusivos. Apenas sentimos algo em um determinado momento. Acredito que eles aparecem para percebermos algo e não necessariamente nos acompanharão pelo resto da vida.
        E, então, entendi também que nos despedimos de alguns sentimentos como quem se despede de um parente muito chegado. Aliás, de alguns deles desapeguei-me completamente como quem deixa uma pessoa em uma estação de trem daquelas bem velhas. Sem olhar para trás, apenas fui embora na esperança de que nunca mais retornariam. Não é que funcionou?
        Ainda continuo sentindo um bando de outras coisas! Mas, no ritmo do meu coração, os sentimentos vão e vem dando novos passos a antigos hábitos sem esperar que eles me sufoquem para então percebê-los. 
         E falo isso com todo o meu sentimento!




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