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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Oh, dona Sônia!

        (no telefone)
        - Oh, dona Sônia. Traga o café?
        - Sim, senhor.
        - Ah, o último relatório também.
        - Sim, senhor.
        - E você sabe onde deixei meus óculos?
        - Não estão na sua mesa?
        - Ah, sim. Está aqui. E a Simone (esposa) ligou?
        - É para buscar as crianças no colégio.
        - E você me avisa agora, dona Sônia?
        - O senhor estava fora de área e chegou somente agora no escritório.
        - Ah, é. Então, tá. Liga para a Simone e fala que não vou buscar as crianças, não. Estou em um dia cheio. E pede pra ela pegar aquela torta também que vamos na minha mãe hoje à noite.
        - Mais alguma coisa, seu Paulo?
        - Não, não. Só isso.
        A cena acima foi baseada em situações reais. Obviamente os nomes são fictícios. No entanto, poderia ter acontecido em qualquer escritório ou consultório. Vamos nos ater a três coisas importantes na cena: 1) a falta de palavras gentis do dono do escritório; 2) apesar disso, a maneira como ele fala é bastante íntima, indicando que a funcionária sabe da sua rotina pessoal; 3) seria o telefone o meio mais indicado para se colocar a conversa em dia logo que se chega a um escritório? Não seria melhor pessoalmente?
        Pois é por esse ponto que prefiro começar. Como disse no post anterior, o mundo está repleto de ferramentas de comunicação. E como são úteis no ambiente de trabalho! Basta tentar enumerá-las: o telefone, o chat da empresa, o smartphone dos funcionários, os tablets, os computadores de mesa. Ah, e tem também aquela pecinha por trás de tudo isso, que aciona os botões: o ser humano, que tem se esquecido de como é feita uma conversa tête-à-tête. E não é por falta de situações comunicativas, não! Pense comigo: você tomou café da manhã com sua família, pegou o carro (ou transporte coletivo) e chegou na empresa onde trabalha. Tem o seu Pedro, o porteiro. Você conversa com ele? Dá-lhe bom dia? Ele lhe recepcionou na portaria, não seria bacana ser gentil e cumprimenta-lo? E aí você encontra seus colegas de trabalho. E o que você faz? Conversa com eles ou senta-se ao computador e começa a trabalhar? Ou pega o carro da firma e já sai? E quando você tem reuniões, não tem que conversar com várias pessoas?
        Pois é. A vida é assim, cheia de gente. Mas, a escolha de se ter um trabalho em que tem um porteiro e um monte de colegas de trabalho ou clientes foi sua, não foi?
        Bom, e aí, para o bom convívio é preciso saber se comunicar. Aliás, dizem que a frase seguinte é atribuída a Jesus (portanto, foi proferida já faz um tempinho): “não faça com os outros o que não gostaria que fizessem consigo”. Ah, você não gostaria que as pessoas lhe cumprimentassem ao chegar na empresa?  Então...
        E ainda existe um complicador extra nas ferramentas de comunicação: você sabe para que serve cada uma delas? Você responde e-mail como se fosse torpedo, cheio de siglas? Ou, então, responde um pedido com uma carinha? Ou ainda, fala ao celular como se estivesse conversando com a mãe no telefone de casa? Portanto, a comunicação também pede contextos! É preciso entender que cada contexto pede um tipo de fala e que as pessoas não têm obrigação de entender uma meia palavra como palavra inteira.
        Aliás, esse é um ponto bastante delicado: as pessoas não têm obrigações com a gente. Nenhuma. Se você é indelicado com sua secretária, não tenha dúvidas: ela vai procurar outro lugar para trabalhar. Não é que as pessoas estão mais sensíveis, não. É que respeito é bom, eu gosto, você gosta e sua secretária também! E é aí que é preciso ser bastante prudente não apenas com o que se fala, mas também com a maneira como se fala.  Tudo bem que todo mundo tem seus dias bons e ruins, claro. E o que as outras pessoas tem a ver com isso? Nada, né? Afinal, dias ruins todo mundo tem.
        E o oposto também atrapalha no processo comunicativo. Tem gente que quer ser tão bacana em sua comunicação, que já chega contando sua vida inteira. Gentileza não tem nada a ver com intimidade. Não é porque sua secretária ou colaboradores sabem quem são seus filhos, que eles precisam saber em que boate seus filhos foram e lhe deixaram preocupado. Ou, que a sua esposa está com um penteado esquisito novo, que não lhe agrada.
        Isso, é problema seu. O da sua secretária é cumprir as funções dela! Portanto, é preciso encontrar um limite entre a intimidade e a gentileza, entre ser bacana e ser invasivo, comprometendo o dia de trabalho das pessoas com suas necessidades pessoais ou profissionais.
        Ah, e para fechar, tem a questão das palavras ríspidas no ambiente de trabalho! Já faz alguns bons anos em que as hierarquias nas empresas mudaram. Não à toa o estagiário nerd participa das reuniões e é uma das pessoas mais criativas. O mundo está cada vez mais co-criativo, o que significa que as pessoas estão colaborando mais ou participando mais das decisões de uma empresa. Elas estão tendo mais oportunidades não apenas de se expressar, mas de contribuir com soluções para problemas que antes eram apenas “decisão da chefia”. É claro que esse cenário ainda está em construção. Mas, sem sombra de dúvidas, daqui a algumas décadas (com sorte, daqui a alguns anos) as pessoas colaborarão mais e mais e não apenas em seu trabalho, mas na sua comunidade, no seu estado e opinarão sobre tudo. E, então, as palavras ríspidas darão lugar a um ouvido atento para receber o novo. Todos são/serão criadores de ideias e soluções. Basta saber expressá-las!
        Oh, dona Sônia, quer tomar um cafezinho comigo?




        

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