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quinta-feira, 11 de julho de 2013

Someday is today



        Quando tinha 17 anos, sonhava em ser correspondente internacional. Achava que ter trinta anos era ser velho, muito velho, e que quando chegasse nessa idade eu teria já vivido minha vida inteira, com todos os sonhos realizados. Nem me passava pela cabeça o que faria, então, aos 50. Isso, não era uma idade que existia!
        Confesso que parte dos sonhos se realizou. Na verdade, tive uma carreira muito mais exponencial do que imaginava. A vida pessoal também foi, assim, agitada, eu diria.  E, então, antes mesmo que se passassem 17 anos, contados a partir dos meus 17, entendi que eu tive mais do que tudo aquilo que sonhei. E, por incrível que pareça, tudo o que havia sonhado já não fazia o menor sentido!
        Portanto, minha previsão estava certa: morre-se aos 30! Não quero usar aqui a palavra morte no sentido literal a que ela se propõe. Mas, uso-a como uma metáfora (sim, eu vou parar de usar as metáforas, um dia) para ampliar a noção de “desejo”. Acredito que os desejos mudam conforme a vida vai acontecendo.
Gosto de brincar que a vida é como aquelas séries americanas que não acabam nunca: alguns personagens vão saindo e outros entrando ao longo dos capítulos, mas os atores centrais se mantém. Assim é a vida real. Você é o personagem central, cheios de sonhos e desejos que, como os personagens da série da sua vida, também perdem a graça. E, então, é hora de fazer com que novos elementos deem mais audiência a sua série!
        Por isso, acredito que é importante estar atento não apenas ao que surge como “novo”, mas é necessário ouvir o coração sem medo do que vá descobrir. Mas, que difícil! Admito que  realmente é delicado se ouvir, assim, de peito aberto! Vai que você se flagra se contradizendo! A imagem que cada um constrói de si pode estar pautada em planos que, um dia existirão, mas que, na realidade, você mesmo não tinha tanta certeza de que eles se realizariam. Esse é o “someday”, o dia em que, talvez um dia, as coisas aconteçam.
        Acredito que é possível entender a frase do bilhete de várias maneiras. Trago duas que considero mais evidentes: someday é um dia que se planeja tanto a acontecer que, enquanto você trabalha e trabalha e planeja e planeja, o dia chega, mas passa despercebido. O foco central do desejo foi desvalorizado pela forma de se chegar até ele. Acredito que também se possa interpretar assim: someday é um dia que você desejou ter, um empregão, por exemplo, e aí, depois de anos lhe cai a ficha de nada disso lhe faz feliz. E o que lhe conforta são outras coisas. Então, someday vira yesterday porque seus sonhos envelheceram.
        E, é aí, que entra a escuta de si mesmo: como é possível entender que tipo de novo é importante para sua vida sem ouvir o coração? Ninguém quer que os seus sonhos se tornem, novamente, um someday. E para isso, vai ser preciso uma certa dose de introspecção. Ninguém conta, assim abertamente, mas se ouvir custa tempo, dinheiro, talvez noites de sono, choro, frustrações, alguma inquietação e uma pitada de fé! Mas, dizem, que depois de tudo isso, o someday se torna today. Aliás, uma amiga me disse esses dias: sonho é algo que nunca vai acontecer, já desejo é aquilo que programo para existir. E que mal há nos desejos?
        Portanto, se pudesse lhe enviar um bilhete, escreveria assim: espero que, todos os dias, o today lhe faça mais feliz do que aquilo que você sonhou someday

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