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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Você viu?


        Semana passada fui surpreendida com uma série de reportagens que assisti, por acaso, nos mais variados canais abertos e fechados e que comentavam sobre como as pessoas “falam” da vida dos outros. E mais, como as pessoas são capazes de julgar os outros a partir de uma perspectiva sua e não da realidade em si.
        Fiquei surpresa também ao ver que o assunto não estava nos programas matinais de entretenimento, mas sim na grade dos telejornais mais sérios do país e também pautavam algumas discussões nas revistas voltadas para artigos científicos. Ao ver o mesmo assunto tanto tempo em debate, pensei: Meu Deus, a fofoca virou mesmo um assunto sério!
        Em uma época em que as informações brotam de todos os cantos, arriscaria dizer que a fofoca passou da inocente brincadeira para o campo da maldade gratuita. Fofocar não é hoje apenas falar da vida do outro, mas cuidar da vida do outro, porque as redes sociais e a internet propiciam que esse “vigiar” seja possível. Acredito que desde a origem da comunicação verbal entre humanos, fofocar era um ato considerado “normal”, porque, pelo senso comum, se as pessoas convivem umas com as outras, por que não poderiam também "cuidar" da vida das pessoas com quem se relacionam?
        Eu digo: porque o mundo ficou mais dinâmico e existe uma gama enorme de informações mais legais para se absorver do que a vida do outro. Quando ir na casa do vizinho era andar um quilômetro até a próxima fazenda, como ocorria no Brasil até o começo do século passado, era normal que qualquer situação virasse um acontecimento e a fofoca não tivesse o peso de “fofoca”, mas de um “informe”. Como, por exemplo: "Você viu que o filho de fulana foi para o Exército?" Mas, nem preciso dizer que, cem anos depois, cuidar da vida dos outros não é assim mais um acontecimento, mas uma escolha. Você cuida se quiser.
        Afinal, o que é fofocar? Nada mais é do que passar para frente uma informação que pode ser verdadeira ou não. E essa informação é passada de maneira geralmente jocosa, para ampliar o efeito da informação dada.
        O que me impressiona é que, por trás de uma fofoca, em geral, existe um desejo de destruir, manipular ou maldizer alguma coisa sobre a vida do outro. E, digam o que quiserem, acredito que as pessoas que começam a cuidar da vida dos outros não devem ter uma vida lá muito interessante. Dizem que, tudo bem, existir uma fofoquinha aqui ou outro ali no ambiente de trabalho. Será? Se as pessoas perdem tempo falando da vida dos outros, elas não estão trabalhando, certo? Então, o que elas fazem no trabalho?
        Vou ainda um pouco além. Acredito que cuidar da vida dos outros é um desinteresse manifesto pela própria vida. Por que você considera o namoro da colega mais legal que o seu? Ou a sua rotina menos interessante que a do vizinho? Então, que tal tornar a sua rotina melhor que a do vizinho? Isso depende de você, não do vizinho, porque ele está cuidando da vida dele.
        Aí, já ouvi pessoas me dizerem: "eu falo da vida dos outros porque fulana coloca tudo no Facebook! Você viu que está de emprego novo? Você viu quem foi naquele barzinho?" Não quero entrar em discussão sobre o que as pessoas fazem da vida, afinal, cada um cuida da sua ou deveria ser assim e colocam o que quiserem nas redes sociais. Vale lembrar, no entanto, que assim como as redes sociais ajudam a expor as pessoas, também ajudam a aproximar os que estão longe.
        Então, não acredito que “a exposição das informações” é que faz a fofoca. Isso é o mesmo que dizer que a ocasião faz o ladrão. Você é fofoqueiro porque você quer, não porque existe uma informação para você fofocar.  
        Dias atrás, uma pessoa chegou para mim e disse: "sei tudo da sua vida. O Google me contou". E, então, respondi: "é mesmo? Acho que não". Particularmente, acredito que o grande mistério da vida consiste em saber o que nos move e como lidamos com os nossos desejos. Portanto, saber da vida do outro porque está no Google, Facebook ou Twitter não é conhecer a vida do outro, mas sim fazer uma leitura rasa de uma situação pontual. Você vê aquilo que você quer ver ou “julga” como quiser.
        E enquanto você faz uma leitura rasa da vida dos outros, eles (assim como eu) vivem porque, claro, temos mais o que fazer.
        Existe uma frase atribuída a Madre Tereza de Calcutá, que diz mais ou menos assim: “enquanto você julga as pessoas, não tem tempo de amá-las”. Se pudesse, ampliaria esta frase, dizendo: “se você julga as pessoas, não tem tempo de se amar porque está ocupado demais com o que nem sabe sobre você mesmo ou seus próprios desejos.”  






A Revista Galileu comentou o assunto: clique aqui!

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