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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Qual é o limite?


        Conversava esses dias com uma pessoa querida que me disse algo assim: qual é o limite entre eu e o outro? Essa conversa durou muitas horas e quanto mais as horas passavam, mais dúvidas surgiam. Será que temos que ser flexíveis sempre? Será que posso dizer não para tudo o que não desejo? Esses foram alguns dos questionamentos naquela tarde.
        Apesar de buscar sempre exercer a assertividade com as pessoas com quem me comunico, sei que ela é difícil. E é difícil porque as pessoas não estão acostumadas com discursos que não estão dentro do senso comum.
        E por que temos que agradar a maioria sempre dizendo coisas que são do “senso comum”? Para sermos aceitos? Pois é, e é aí que começa a luta pela assertividade. Acredito que há uma linha muito tênue entre a socialização e a individualização ou, trocando em miúdos, entre aquilo que eu penso e falo e o que a sociedade espera que eu pense e fale. E é a partir do ponto de vista do desejo da sociedade que muitos de nós criamos os nossos discursos diários. Mas, no final do dia, quando chegamos em casa e colocamos a cabeça no travesseiro será que somos felizes conosco (cada um com si)? Acredito que a frustração de não dizermos o que pensamos é eternamente maior do que a culpa por termos exposto um sentimento.
        E expor um sentimento não tem nada a ver com grosseria. Todos nós podemos defender nosso ponto e vista com sabedoria, educação e sensatez (sim, a mesma utilizada para o “senso comum.”)
        Uma das maneiras de se expor um sentimento sem ofender é dizer a “sua verdade” com calma, de maneira relaxada e feliz. Vou citar um exemplo. Se você precisa negar um convite de uma parenta para ir ao cinema, apenas diga “obrigada, prima, mas hoje não quero ir ao cinema.” Se você vai a uma sessão porque precisa agradar a sua prima tem alguma coisa errada nessa relação. Sua prima vai entender se você não for. Aliás, mesmo que ela não entenda você não tem obrigação de fazer com que ela entenda, afinal, simplesmente negou um convite. Nós não podemos nos responsabilizar pelo sentimento do outro apenas porque fizemos uma negação. As pessoas também precisam aprender a lidar com suas frustrações.
        Mas, tentar falar com assertividade é mais do que isso. É tentar entender o que o outro está falando e por que está dizendo tal coisa antes de darmos a nossa opinião. Lembro-me de tentar oferecer comida a um mendigo que mora perto de casa e ele sempre negava qualquer oferta. Havia feito de tudo: tentei levar pão, frutas, salgados. E aí, um dia perguntei: o que o senhor gosta de comer? Fico aflita que o senhor não come nada! E, então, ele me disse: moça, sou mendigo. Eu não gosto de comida. Gosto de ficar sozinho sem que as pessoas me perguntem o que eu quero comer. A todo momento alguém me pergunta isso! E, então, entendi que a comida era uma observação minha sobre a fome dele. Tirei uma conclusão precipitada sem antes perguntar se ele gostaria de comer algo.
        O limite do mendigo não é o meu limite. Um discurso, mesmo que solidário pode ser altamente invasivo. Portanto, comecei a praticar a solidariedade perguntando o que as pessoas precisam não o que eu acho o que elas precisam, se é que elas precisam.
        Mas, vamos voltar um pouquinho na história da grosseria. Muita gente poderia interpretar o mendigo como um grosso. Não o vejo assim. Se não observamos o que o outro fala (seja qual situação for) possivelmente tiraremos conclusões erradas ou faremos interpretações equivocadas.
        E é por isso que abomino as provocações e indiretas. Quando uma pessoa precisa atacar a outra através do discurso, ela não se deu ao trabalho de se colocar no lugar do outro e muito menos teve maturidade para expor um sentimento. Provocar, portanto, não é o mesmo que expor seu sentimento. Exponha o que você sente com o coração e com educação.
        Uma vez uma excelente psicóloga me disse uma frase que amei. Disse ela: “li um livro em que estava escrito assim: só existem duas verdades na vida: a minha e a errada.” Achei ótima essa frase porque por mais que tentamos negar achamos sempre que a nossa verdade é a verdade verdadeira. E, se você considera isso, por que ainda quer a aceitação das pessoas para os seus discursos? Aceite a sua verdade! E isso não tem nada a ver com falta de flexibilidade. Em algum momento do nosso dia vamos ter que fazer algo que não quereremos e fazemos porque precisamos. No entanto, naquilo que consideramos inadmissível, não podemos ceder. Se algo te fere, por que continua fazendo?
        E é por isso que eu digo: ninguém precisa concordar com a nossa verdade. Ela já é importante para nós mesmos.


         

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