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quarta-feira, 17 de abril de 2013

De quanta informação você precisa?

         Esses dias li uma informação que me deixou perplexa: uma agência de turismo americana se especializou em viagens completamente antitecnologia. O viajante não pode levar nem computador, nem Ipad, nem celular, nem relógio. Por que precisamos ficar desconectados?
        Vou inverter a pergunta e talvez tenhamos uma resposta: por que precisamos ficar conectados? Você já pensou se morasse sozinho em uma ilha, como se comportaria? Você seria feliz? Possivelmente, não. Existe um desejo, inerente a todos nós, que é o de estar inserido em algo, de fazer parte de um time, de um grupo, de um nicho, de estar dentro da sociedade. É o nosso desejo de coesão e, por causa dele, não fechamos a porta na cara de nossas famílias na primeira briga que temos. Mesmo aquelas famílias que são desestruturadas ou ruins, a sensação de pertencer a algo ou a alguém faz com que nós “nos amemos na alegria e na tristeza”. A não ser que não tenhamos nenhuma sensação de pertencimento àquele grupo, nos esforçamos para nos manter dentro dos nichos que criamos: a família, os colegas de trabalho, o pessoal do futebol e por aí vai.
        No entanto, essa sensação de pertencimento, até há algumas décadas, se resumia exclusivamente a esses grupos citados acima. Depois que a tecnologia virou parte presente e obrigatória em nossas vidas, expandimos nossos grupos de pertencimento. Então, por exemplo, se pertencemos a um grupo de discussão no Facebook, não necessariamente conhecemos as pessoas que estão lá. Pergunte para o seu avô se ele não acha esquisito trocar “experiências pessoais ou profissionais” com desconhecidos? Mas, para nós não faz diferença, desde que possamos fazer parte desse mundo, mesmo que ele seja virtual.
        E esse desejo de pertencimento faz nos ligar, também, em coisas que anteriormente não faziam tanta diferença assim para nós simplesmente porque não tínhamos acesso a algumas informações. Por exemplo, quando vemos na televisão uma onda de ataques a ônibus em Santa Catarina, não duvidamos que pertencemos àquele mundo. E que, por conta disso, podemos ter a sensação de correr o risco de também sofrermos um ataque de violência, certo? Mesmo quem não mora em Santa Catarina pode ter essa sensação. Esse mundo que é exposto nos veículos de comunicação, obviamente, é real. Mas, será que ele é real para a nossa rotina? Se não tivéssemos escutado essa informação, nos sentiríamos menos ameaçados?
        O que quero dizer é que acredito, honestamente, que a quantidade de informações que temos disponíveis hoje, a todo momento,  ajuda sim a nos conectarmos com a realidade; nos instrui para o novo, para a ciência, para a mudança.
        Mas, se o mundo expõe uma quantidade maior de informações, cada vez mais, temos a sensação de que precisamos dessas informações para “pertencer ao mundo”. Portanto, estamos consumindo “informações como verdade”, sem questionar.  Por exemplo, cito as dezenas de revistas especializadas na nossa área que vemos nas bancas e gostaríamos de ler; a meia dúzia de canais novos de televisão por assinatura que gostaríamos de assistir e uma pilha de livros “interessantes” ainda não lidos. E com essa quantidade toda de informações, cria-se o efeito contrário do pertencimento: quem dá conta de ler e assistir tantas informações? E se não damos conta, podemos nos sentir fora do mundo.
        E por que precisamos de todas essas informações? Para nos sentir pertencido a algum lugar? Se não tomarmos cuidado com a nossa “sensação de pertencimento”, vamos acabar consumindo o que não precisamos, perder tempo com vontades alheias, observar o mundo a partir de uma perspectiva pronta, recortada por alguém que não somos nós, mas que nos entregou um mundo de desejos em nossas mãos. E aí, surge a angústia.
        Então, em vez de lhe fazer a pergunta sobre o por que estamos conectados, vou lhe perguntar assim: e se você não se conectar? Eu realmente acredito que é muito difícil viver sem conexão com o mundo. Mas, tenho pensado profundamente, com quem ando me conectando e que tipo de trocas “reais” tenho com as pessoas, porque elas serão o espelho de meus desejos ou das informações que irei consumir.
        Acho uma bobagem viajar e ficar sem telefone, nem relógio, nem nada disso. Eu preciso me “limpar” da tecnologia porque estou com a mente poluída por informações?
        Quando a informação bate a minha porta em formato de um aplicativo para o celular, por exemplo, eu penso: “tá bom, aplicativo, eu sei que você existe. Só vou analisar melhor se preciso de você neste momento, porque ultimamente preciso de mim, de meia dúzia de amigos e de minha mochila para viajar”. A informação é muito bem-vinda, obrigada, mas um dia eu a acesso.





p.s: achei esse artigo do The Guardian interessante. É o tipo de artigo que acrescenta: http://www.guardian.co.uk/media/2013/apr/12/news-is-bad-rolf-dobelli

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