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quarta-feira, 6 de março de 2013

Dano e Reparação


        Uma das coisas mais lindas da linguagem é a infinita possibilidade de combinações que podemos fazer para passar uma mensagem. Aliás, falamos porque temos necessidade de conversar.
      E para conversar, estabelecemos trocas, muitas vezes deliciosas. Podemos elogiar alguém; agradecer uma gentileza; ajudar uma pessoa em aflição ou até suavizar uma dor através da nossa linguagem. A nossa possibilidade é infinita quando queremos agradar alguém. Vejam os poetas, por exemplo, quantas palavras bonitas traduzem o amor?
        É um fato, no entanto, que as combinações que fazemos da linguagem nem sempre são usadas de maneira a trazer o benefício. Quantas vezes já tivemos a intenção de usar a linguagem para machucar alguém? Se você já xingou qualquer pessoa se encaixa, perfeitamente, nesse exemplo.
        Mas, será que usamos a linguagem de maneira inadequada apenas quando xingamos? Obviamente, não. A linguagem pode ser usada de maneira perigosa. Quantas vezes percebemos a maledicência de quem está ao nosso redor? Ou então, quem nunca foi vítima de um comentário estranho feito de uma maneira muito educada? É, são as artimanhas da linguagem! Podemos fazer tudo o que quisermos com a nossa comunicação, só não podemos nos esquecer de que tudo o que falamos tem consequências.
        É o que eu chamo de dano e reparação. Quando assumimos o risco de agredir, estamos também assumindo a responsabilidade pelo dano causado. Mesmo quando não temos tanta consciência assim sobre o que dissemos, o outro (quem ficou ofendido) vai lembrar que aquilo que foi dito não deveria ter sido falado de tal maneira. E, em algum momento, a reparação vai ser necessária.
        Nem sempre é possível controlar tudo o que falamos. Esses dias, puxei conversa com uma mãe que estava com uma criança no colo. E, então, eu disse: “nossa, ela é a sua carinha”. A mãe, meio sem jeito, me disse: “ela é adotiva, não pude ter filhos”. Nessa hora eu pensei porque que eu havia aberto a minha boca. Não podia ter ficado quieta?
        Pois, é! Mesmo sem querer, podemos causar danos através da linguagem. E, neste caso, é melhor admitir que erramos e fazer a reparação. Para a mãe da criança, eu disse: “me desculpa, fui tão invasiva. Eu não tenho nada a ver com a vida da senhora. Apenas achei a menina bonitinha”. A desculpa foi aceita.
         Mas, e quando o dano é bem maior do que isso? E quando temos a intenção de ferir através da linguagem? Eu sempre digo que grandes guerras começaram por causa da falta de “ouvir” o que o outro está nos dizendo. Se eu não me coloco no lugar do outro quando converso é bem provável que eu não entenda o contexto que aquela fala foi dita e porque foi dita. O que pode gerar ruídos.
        Por isso, acredito que o bom uso da linguagem só é possível quando exercemos a troca justa com o nosso interlocutor.  É preciso ouvir para depois falar. E se mesmo que eu não tenha tido a intenção de magoar alguém através da linguagem, mas fiz, será que essa pessoa vai deixar de ficar magoada se não me posicionar com humildade e admitir o erro e me reparar?
        Pouco provável. E quando algo dito e não reparado toma dimensões maiores pode representar o fim de famílias, de relacionamentos, da diplomacia entre estados.
        Será que em uma Era em que a comunicação é tão acessível e abundante ainda não aprendemos a ouvir aquilo que nós mesmos dizemos?
        Se não prestamos atenção na nossa comunicação ficamos no ciclo entre o dano e a reparação. Até quando iremos reparar se podemos usar nossa linguagem de outra maneira?
         Eu prefiro acreditar que a linguagem é uma infinita possibilidade de combinações que podemos fazer para passar uma mensagem, sem dano, nem reparação.



1 comentários:

Muito reflexivo! Congrats ;)
Camila Bianchi

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