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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Converse, apenas...


           O que há entre a realidade e a imaginação? Entre a verdade e a ilusão? Entre a fala e a reação?
        Esses são alguns questionamentos que lanço para você que lê este site. E foi para "filosofar" um pouco sobre a vida que entrei, há poucos dias, em um café. Sentei-me em uma mesa no canto e pedi um copo de água. Queria apenas digerir o momento, sem nenhum sabor extra. E então, foi que me deixei abandonar, sem nenhum pensamento sobre quem eu era naquele momento, e observei a vida ali pulsante.
        Percebi pequenos atos feitos por desconhecidos como se fossem peças de teatro ocorrendo simultaneamente. Pude ver em cada rosto expressões diferentes, como a alegria, a tristeza, o conforto, a busca do outro, a falta do que buscar. E percebi também que a conversa ao acaso faz das pessoas o que elas são, mesmo que não percebam isso.
        Vi uma mulher sorrir para outra e, instantes depois, virar a cara e sair brigada com a amiga. Ou seria sua colega? Vi um senhor olhar um cachorro lá fora e conversar com ele através do vidro. Vi uma mulher decotada flertar com o garçom e pedir uma bebida com álcool. Observei também que um senhor me observava e me apontou com o dedo para um amigo, também já senhor de idade. Vi uma moça tomar cinco xícaras de café, sem exagero, enquanto falava com o namorado. Pelo tom da conversa em histeria, poderia ser o amante, pensei. O que unia essas pessoas – ou as desunia – era a maneira como elas conversavam, sem que elas notassem isso.
       Alguns estavam curvados para os outros, demonstrando profundo interesse pelo interlocutor naquela situação. Outros estavam praticamente sentados de lado ou em paralelo, como se quisessem evitar aquele momento. Vi muitas pernas cruzadas em sinal de elegância, mas pés impacientes para a próxima fala.
        Quantas ênfases e entonações e depreciações ou elogios podem haver em apenas uma conversa? Só sei que naquela meia hora em que estive sentada, observando tudo ao redor, percebi que não nos damos conta dos diálogos que podemos ter, como pequenos tesouros. Quanto de profundidade ou de raso existe naquilo que é dito?
        Acredito que há tanta vida em uma conversa franca, mesmo que ocasional, quanto em um ano inteiro de silêncio meditativo. Não que uma conversa com a gente mesmo não possa ser interessante. Longe disso! Adoro me levar para tomar café, por exemplo. Mas, acredito que às vezes é importante ouvirmos uma voz que não a nossa, para não nos viciarmos com nossos próprios conceitos, nossos preconceitos, com as mentiras que inventamos para nós mesmos ou verdades que temos como absolutas.
        E quando me dei conta, ainda no café, estava questionando: o que há entre a realidade e a imaginação? Entre a verdade e a ilusão? Entre a fala e a reação?
        Entre tudo isso, há aquilo que chamo de conversa. Mesmo que seja real ou ficcional ou até imaginária, o que importa são os ecos das conversas que tivemos até então, e que tornaram cada momento verdadeiro ou mentiroso. É a fala e a reação sobre aquilo que expressamos.
Por isso, recomendo as conversas não como doses homeopáticas. Tome overdoses de conversas. Fale! Troque! Entenda! Questione! Aceite ou rejeite! É para isso que conversamos. Não estamos imunes ao diálogo. Ele vai aparecer, mais cedo ou mais tarde, para ter um papinho com você.
 Ao final da minha pesquisa, levantei-me lentamente da cadeira para poder saborear o que ainda restava no ar daqueles momentos, que foram únicos. Logo que saí pela porta, pensei: isso não vai acontecer de novo, não desta maneira.
Naquele período de tempo no café, não conversei com ninguém para que hoje pudesse conversar com você sobre isso.
        Escolhi a conversa para inaugurar o ano neste site. Se pudesse dar as boas-vindas ao seu ano, leitor, eu diria: converse! Apenas. 





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