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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O dia D



                Diz a profecia maia que o mundo vai acabar no dia 21 de dezembro deste ano. Eu duvido muito que isso aconteça, mas gosto do frisson que o assunto causa na humanidade. Tem gente que não se importa de jeito nenhum com essa história. Mas, existem outros que, realmente, estão se preparando para essa data com rituais, orações, meditações. Muita gente diz que o sistema aéreo não deve funcionar nesse dia, assim como computadores vão dar pane, países inteiros devem ficar no escuro, a água pode não sair das torneiras. Enfim, as previsões são muitas, mas ninguém sabe se elas realmente vão acontecer.
            Vamos pensar que o mundo não acabe no dia 21 de dezembro, mas que um desafio seja imposto para nós humanos. Imagine se na manhã deste dia todos nós acordássemos mudos, completamente, como se fosse uma mudez coletiva. Ninguém conseguiria pronunciar uma única palavra. E mais, o desafio também se estenderia sobre a internet e as Redes Sociais que entrariam em colapso. E para nosso espanto, os obstáculos também recairiam sobre qualquer objeto ou coisa que nos ajudasse na comunicação, como canetas e lápis, que deixariam de funcionar. Ou seja, estaríamos isolados em nós mesmos, sem comunicação externa. Você já imaginou como seria você sem a sua voz? Sem a internet e sem a comunicação escrita? Isso te incomodaria? E como você faria para se comunicar com as pessoas?
Eu fico pensando quantas situações diárias limites existiriam para nós que estamos acostumados a usar a linguagem, muitas vezes, sem pensar. Imagine só o esforço que seria conversar com qualquer pessoa. Antes de tudo, teríamos que aprender a linguagem dos sinais. Mas, acredito que esse seria um processo demorado. Já pensou a humanidade inteira tentando aprender libras ao mesmo tempo? Pessoas dormiriam na fila das escolas para conseguir esse benefício e, talvez, nem todo mundo tivesse essa paciência de esperar.
Na ansiedade de nos comunicarmos, penso que muitos de nós teríamos que olhar profundamente nos olhos dos outros para nos fazer entender e entender os outros. Será que as pessoas nos compreenderiam dessa maneira? Será que entenderiam nossos gestos? Talvez os conhecidos, amigos, colegas de trabalho conseguiriam fazer um contato conosco em um primeiro momento. Mas, e depois de semanas, aguentaríamos não falar e só gesticular e ficar olhando para as pessoas o tempo todo?
            Acredito que o caos se instale antes do que imaginemos. Mesmo porque, até agora eu disse apenas das situações normais do cotidiano, como falar com as pessoas, ir trabalhar, almoçar, estar com a família, amigos. Mas, pense naquelas situações diárias que convivemos e que são (ou deveriam ser) um pouco fora do comum: por exemplo, como você faria para xingar alguém no trânsito, já pensou? E imagine também que no trabalho, como agiria um chefe agressivo? Já que ele não pode humilhar os funcionários, o que faria? Iria começar a bater nas pessoas? E aquele parente que você não curte muito? Como você o trataria se dependesse da ajuda dele para se comunicar? Como você iria levar vantagem sobre alguém? Como iria mentir para a sua mãe sobre a hora que você chegou em casa?
            Eu realmente fico imaginando como seria a vida sem voz. Eu acredito que o cenário poderia ser mais ou menos como o descrito na obra “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago. O livro, que depois virou filme, fala de uma cegueira coletiva que, aos poucos, vai contaminando as pessoas. Mas, não é uma cegueira qualquer. Saramago traça um paralelo sobre os caprichos da humanidade que deixamos de ver simplesmente porque não podemos mais enxergá-los, literalmente, e aí temos que voltar ao estágio da sobrevivência. Aquilo que priorizamos é aquilo que importa? É o que move a sociedade é o que nos faz bem? Claro que isso é uma interpretação minha sobre a obra. Cada um pode tirar suas próprias conclusões e, com certeza, existirão outras versões para ela. Mas, o questionamento é válido: até quanto agimos em coletividade? Ou será que agimos em coletividade apenas em situações limites? Ou será que nas situações limites, agiríamos em coletividade?  
Agora, vamos voltar para o cenário da humanidade muda. Eu acredito que teríamos que mudar coisas simples para passar esse período com menos transtornos. Afinal, não teríamos nem a oportunidade de ouvir as pessoas conversando nas ruas, nos cafés, nos ônibus, supermercados. O silêncio predominaria e cada um teria a si só para conversar. É como se ouvir o tempo todo. E aí, vem uma outra pergunta: você conseguiria conviver com os seus pensamentos?
Faço esse questionamento porque escuto, diariamente, discursos circulando no ar meio que sem donos e que, em geral, as pessoas atribuem aos outros, sem a consciência do que é dito. E se formos colocados em contenção, obrigatoriamente, isso não seria possível. Teríamos que assumir a responsabilidade sobre aquilo que falamos porque falaríamos só para nós mesmos. E esse eco é bom para você?
Portanto, acredito que deixar de falar nos colocaria em xeque-mate conosco – cada um com si. E, a não ser que você seja onipotente, a necessidade que temos de conviver em sociedade nos obrigaria a repensar quem somos, como vivemos e como falamos. E nos faria acordar para os sinais que emitimos através da linguagem.
Assim como na obra de Saramago, em que as pessoas voltam a enxergar, acredito que um dia a humanidade possa falar novamente, como um alívio inesperado. Pensando nisso, pretendo utilizar bem a minha linguagem enquanto eu puder falar, não apenas por benevolência, mas porque acredito que essa seja a condição única para o convívio em sociedade. Portanto, quero utilizar minhas falas para criar e não fazer malcriações, para compartilhar conhecimento, alegrias e benefícios. E você?




Se você não assistiu, assista. Vale a pena!




p.s: tenho um profundo respeito aos mudos e surdos que mostram para nós que se comunicar é uma questão de vontade, de intenção. Eles se comunicam melhor do que ninguém. 



















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