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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Brincando com as palavras


         Você já pensou que as palavras de um dicionário podem trocar de lugar? Eu já. Eu acredito que quando a gente fecha um livro, as palavras ganham vida e pulam de uma fileira para outra. Assim como os brinquedos do filme, Toy Story, que também ganham vida quando as crianças não estão por perto (rsss.)
        Eu sei que parece loucura dizer isso, mas a vida de palavra impressa de um livro não é nada fácil. Elas nasceram com a grande responsabilidade de serem úteis, full time. E tem que estar prontas para você quando quiser lê-las. Por isso, precisam estar paradinhas nos lugares onde foram deixadas para transmitir significados. Paradinhas mesmo, como os guardas britânicos do Castelo de Windsor.
        Portanto, seu eu fosse a palavra “fortaleza” no dicionário, trocaria de lugar algumas vezes com “fortificar”, quando ninguém estivesse olhando. Afinal, elas tem quase o mesmo significado, não é? Claro que não, mas é no mínimo estranho pensar que falamos as palavras sem prestar atenção nos significados delas. Apenas as aceitamos e as utilizamos para transmitir mensagens. Você, por exemplo, já questionou o significado da palavra chocolate? Ninguém tem dúvidas do que é um chocolate.
Por isso, adoro brincar com as palavras. Mesmo aquelas que tem um único significado podem ser usadas de diversas maneiras. Chocolate, por exemplo, é o nome do cachorro de uma amiga, que é todo marronzinho. Veio a calhar!
Existem outras palavras que se abrem para um leque maior de possibilidades e combinações. Por exemplo: de vez em quando, a gente tira o extrato da conta, certo? Para ver se temos dinheiro para comprar extrato de tomate. E quando você vai ao banco, tem banco para você se sentar? Quem nunca sujou a manga da camisa chupando uma manga?
        O nome disso é polissemia, quando uma palavra produz mais de um sentido. Outro detalhe que gosto nas palavras é a maneira como as pronunciamos. Você reparou como é preciso abrir bem a sua mandíbula para falar “articular”. E como é difícil falar Anhangüera?
        Sem contar àquelas palavras que são pouco utilizadas – pelo menos para a maioria das pessoas – e que quando pronunciadas emitem sons engraçados. Não me leve a mal, mas você sabe o que é achanar? E você utiliza bem a percha? E alguém achavascado, te bota medo? Os ginastas usam bastante a percha, que são varas compridas de madeira que os atletas usam para fazer os exercícios. E achanar, nada mais é do que nivelar, deixar plano ou rente ao chão. Já uma pessoa achavascada é alguém grosseiro, rude.
        E já repararam como as palavras escatológicas tem, em seu som, algo que já é meio nojento? Pus, por exemplo, não te dá uma sensação ruim só de falá-la? E catarro? Que nojo! Elas fazem jus à sua função: transmitem, em seus sons, algo repugnante mais até do que a própria escrita.
        Mas, também existem as palavras que transmite sensações boas. Nuvem é uma delas. Eu me sinto mais leve só em pronunciá-la. Assim como maçã, perfume, batom e pipoca. Veja como nenhuma dessas palavras traz antipatia, não só pelo significado que a elas é atribuído, mas pela alegria espontânea que temos ao pronunciá-las. Ninguém fica triste ao falar maçã, mesmo não gostando da fruta. E ainda que você seja alérgico a perfume, quem é que não gosta de um cheirinho bom? 
           Quando falo a palavra batom, por exemplo, me vem imediatamente à cabeça a imagem de Jessica Rabbit, do filme animado. Nem todo o batom é vermelho, mas na personagem, a palavra batom cai muito bem. 



         E pipoca, então? É possível pipocar várias coisas na mente quando falamos essa palavra. Cinema? Infância? Amigos? Festa?
        E mais! Acredito que algumas palavras só podem ser pronunciadas na sua língua de origem. Eu tenho uma luminária em casa, mas adoro chama-la de abat-jour. Também acredito que bath é algo que vai me deixar mais limpinha do que banho, ainda que em inglês tomar banho seja take a shower.
        É a força das palavras. Eu não sei quando a palavra “casa” virou casa, assim como trabalho virou sinônimo de ofício, assim como trânsito se tornou o termômetro para o estresse. Talvez algumas dessas palavras sejam milenares, afinal, até os homens das cavernas tinham uma casa. E, com certeza, a palavra trânsito só virou sinônimo de inferno de uns tempos para cá. Não importa.
O que é legal mesmo é ver que as palavras estão aí para serem utilizadas como uma grande brincadeira. Eu ainda prefiro acreditar que as palavras que eu escrevo pulam de uma linha para outra quando fecho meu computador.
        O importante é que quando eu o abro novamente, elas estão muito melhores do que as deixei. ;)



p.s: vocês já assistiram Toy Story?


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