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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Um papo com minha vó!


            Já virou rotina. Não importa o horário que eu chego em casa, ligo para minha vó domingo à noite. Mas, é tarde mesmo. Lá pelas dez, onze horas. É quando consigo parar um pouquinho para organizar melhor as ideias da semana que passou e tomar fôlego para o que virá.
            E esse é um compromisso que gosto muito. Minha vó não é uma vó qualquer. Ela é avant-garde, mesmo que ela não saiba o que significa isso. Eu cresci ouvindo ela dizer que “filha minha não vai para a cozinha, vai para a universidade”. Minha vó não queimou soutien, mas peitou o pai dela para que minha mãe e minha tia pudessem estudar à noite na faculdade. Uma afronta aos regimes rígidos que ela viveu. Pois, dito e feito!  Ela não só criou filhas estudiosas como garantiu uma linhagem de netos que tem uma queda pelos estudos.
             Uma das coisas que gosto da minha avó é que no auge de seus 83 anos ela mais se parece com uma adolescente. Sempre viva, esperta, dinâmica. Adora uma bagunça, principalmente com os netos. E é muito difícil de enganá-la.  Por isso, não pense você que do outro lado do telefone existe uma senhora enrolada na coberta, com seus óculos, me chamando de netinha.
            Dona Cida é uma italiana nata. Adora bater perna, fazer compras, dirigir. É falante, intensa, canceriana, gesticula muito e fala o que pensa. De vez em quando, arranja uma briga aqui ou ali. Está no sangue (rssss)! Mas, o que acho de mais diferente em sua figura é que ela adora puxar um papinho com qualquer pessoa na rua. Sem nenhum pudor.
            E nas nossas conversas é sempre muito legal observar sua bagagem de vida. Dona Cida se lembra de coisas da época da Segunda Guerra Mundial, como, por exemplo, quando ela e os irmãos guardavam tubos metálicos de pasta de dente para fazer bola de canhão. Ou ainda quando ela conta que na época de mocinha não existiam lojas, como hoje. Os fabricantes iam até a casa do cliente oferecer roupas e sapatos. Já pensaram isso nos dias de hoje?
            E apesar de ter muitos causos para contar, a vó é uma ouvinte nata, o que admiro muito na geração dela. Que capacidade de ouvir que eles tem sem interromper o interlocutor um único instante, não? Ela vai dar a opinião dela, claro, mas vai te dar atenção até que você conclua. E quando ela for dar a opinião dela, não vai dizer "na minha época não era assim". Não me lembro dela fazer comparações com o antigo e o novo. Ela conta sobre o antigo, mas vive o novo.
            E, mais! É muito legal ver a maneira como ela torna qualquer discurso simples e objetivo. Você já pode imaginar que Dona Cida não faz rodeios. Ela fica muito à vontade para fazer questionamentos que qualquer ser humano deveria se fazer. Por exemplo: “se algo não está bom, por que você continua”? E não tem o menor medo de mostrar seus sentimentos: “o que fizeram com você foi uma covardia”, reclama. Minha tia diz que minha “vó fala coisas que deixa a gente pensativo. E não é que quase sempre ela tem razão?” -  conclui a tia.
              Mais do que voltar no tempo, trocar ideias ou simplesmente pedir colo, os telefonemas com a minha vó são, para mim, a observação de discursos de uma geração que teve que lutar muito e que, por isso,  representa a coragem de viver,  sem medo de querer agradar a todo mundo. E eu adoro ver que mesmo vivendo em épocas diferentes, falamos a mesma língua. 
             Sabe, vó, vou torcer para que nossos telefonemas continuem assim. Até eu completar 83 anos! Combinado?


1 comentários:

Alloyse querida, minha mãe vai ficar muito orgulhosa em saber que seus papos foram parar na internet! Quero apenas acrescentar uma coisa sobre ela... aliás uma coisa muito importante... sua inteligência!! Além da maturidade peculiar à pessoas de 83 anos, a inteligência da Dona Cida não é tão comum. Ela lê nas entrelinhas da mesma forma que sua conversa flui...É sua inteligência que faz com que fiquemos tão pensativas quando conversamos com ela!!

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