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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

#prontofalei


            Um dos meus divertimentos ao falar com as pessoas é reparar como elas criam as frases e estruturam seus pensamentos. Acredito que poucas pessoas se divertem com isso, em todo o mundo. Tudo bem, não estou pedindo quórum.
            Não sei se você repara, mas quando as pessoas falam denunciam muito de si: suas entonações, trejeitos, vírgulas, apostos, interjeições. É delicioso perceber que cada um se expressa de uma maneira ímpar.  Uma das minhas expressões preferidas é: “sei”! É quando eu sei que nada sei para parar para pensar sobre coisas que talvez devesse saber, mas não sei. É o que eu chamo de DNA comunicativo, cada um tem o seu.
         Nós não reparamos também que as palavras vêm carregadas de sentimentos profundos, dores, alegrias, euforias, tristezas, mas que pronunciamos, na maioria das vezes, de uma maneira quase que inconsciente. Funciona mais ou menos como o “Prontofalei”, que é quando dizemos aquilo que queremos e pronto e acabou. Até porque falar, se expressar, dar pitaco, detonar é quase um esporte.
            O “prontofalei” é uma das expressões que mais tenho visto, nos últimos tempos, em qualquer lugar que esteja, principalmente nas Redes Sociais. Ela faz parte do imaginário coletivo, foi inserida no cenário virtual e real pós Twitter e estabelecida como jargão popular. Veio para ficar.
            O que me intriga no “prontofalei” é que se “prontafalamos” o que queremos, será que “prontofalamos” o que devemos? Esses dias, fiz questão de contar no meu Twitter quantos “prontofalei” existia, dando uma zapeada rápida no meu celular. Fiquei chocada: havia 37 pessoas com frases cabeludas e, na sequência, o hashtag prontofalei!
            O “prontofalei” é uma maneira de deixar marcado – principalmente nas Redes Sociais - que protestamos ou nos expressamos sobre qualquer coisa, mesmo que essa qualquer coisa seja qualquer coisa mesmo. Esses dias, uma amiga colocou no Twitter: menstruei #prontofalei.  Fiquei pensando: caramba, se todas as mulheres do mundo tivessem a mesma ideia, o Twitter fecharia as portas! Literalmente.
            Mas, existem outros prontofalei mais agressivos. Eu li no Facebook algo como “vou matar meu chefe #prontofalei”! Bom, antes de matá-lo, talvez ele possa usar isso como prova para sua demissão ou até abrir um boletim de ocorrência contra quem diz isso. Já pensou?
            Não existe nenhum problema em se expressar, mas já pensaram na dimensão que isso tem? Quantas pessoas vão ler o que você escreve? Como elas vão interpretar aquilo que você lê? Que consequências tem? É claro que não dá para perder a naturalidade e ficar pensando o tempo todo sobre aquilo que se fala ou escreve. Seria muito chato e você perderia aquilo que é delicioso: o seu DNA comunicativo.
            Mas, quando o assunto é “prontofalei”, é preciso pensar bastante antes de ter o impulso de escrever o que se pensa. A tentação é grande, mas talvez evite um impacto negativo sobre o que você comunica. Mesmo  porque na “vida real” não podemos falar tudo o que pensamos, né? Já imaginou você dizer tudo o que pensa para os seus colegas de trabalho ou aquele familiar que você não curte e que todo Natal estraga a sua festa? Pois é, e para isso usamos o bom senso.
            O problema é que as consequências do “prontofalei” são tão reais quanto aquilo que expomos no mundo virtual, mas nos esquecemos disso.
            Essa história me lembra aquela parábola bíblica que diz assim: vigia e orai.  Mesmo não sendo católica, ouvi isso a vida inteira porque, assim como o “prontofalei”, ela também faz parte do imaginário coletivo. Parafraseando Jesus, o apóstolo Matheus disse essas palavras para enfatizar a importância de se cuidar dos pensamentos, das ações, das palavras.
            Sei que juntei dois mil anos em uma única frase, mas isso me parece tão atual. Afinal, se você não vigiar suas palavras, talvez tenha que rezar muito (Rssss).
            Deixo para você decidir isso. #Prontofalei!


   

            

1 comentários:

Muito bom! De forma humorada abordou questões atuais e importantes. As modas nas redes sociais, assim como em qualquer outra, precisam ser pensadas e não simplesmente repetidas...

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