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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

As gerações e a comunicação


           Falar, escrever, telefonar enquanto está no computador, ver a mensagem que chegou enquanto trabalha. Fazer tudo ao mesmo tempo e agora! Isso te parece familiar?
            É a maneira como nos comunicamos hoje. Existem muitas plataformas de comunicação ou displays, como as pessoas chamam. Mas, isso só foi possível depois do surgimento das novas tecnologias, como internet banda larga e os smartphones. Produtos preferidos dos Millennials, os jovens de hoje que consomem informação mais do que qualquer outra coisa.
            Será que eles são mais comunicativos do que as outras gerações? Possível. Se fizermos uma análise do tempo sobre a linguagem vamos observar que são os jovens, sempre, os precursores de mudanças e são eles que também representam as novas linguagens. Sabem por que?
            Os jovens, independentemente da época, querem mudar o mundo. Por isso, ditam moda e tendências, são os grandes pulverizadores de novos comportamentos e também da maneira de se comunicar. A BOX 1824, empresa pesquisadora de tendências, fez em 2010 um vídeo chamado We all Want To Be Young, em que mostra como a força dos jovens influencia em todos os setores sociais.



  
            Para falar sobre jovens e a linguagem utilizada por eles, convido Paula Abbas, pesquisadora de tendências que vai fazer um bate bola com a gente e explicar melhor como o comportamento dos jovens influencia também  na comunicação.

Paula, é claro que hoje temos mais tecnologias que nossos pais tiveram quando eram jovens. E isso influencia a vida dos Millennials. Mas, cada uma das gerações demarcadas (baby boomers, X e Y) tiveram um comportamento comunicativo próprio. É possível distingui-los?

Apesar de algumas críticas atuais à definição e generalizações sobre comportamento e linguagem das gerações, acredito que sim, é possível distinguir comportamentos peculiares a cada geração e seu impacto na comunicação. Para sempre seremos reféns de nossos primeiros anos de vida. Os acontecimentos de nosso entorno durante a infância definem, em grande parte, nosso comportamento na vida adulta. E é considerando o espirito do tempo que regeu a infância e adolescência destes grupos que podemos fazer uma leitura de sua evolução comportamental.
Segundo Jean Piaget, um dos mais renomados teóricos do desenvolvimento cognitivo, é entre 2 e 7 anos que surge a função simbólica tornando possível atribuir significados à realidade. Entre 7 e 12 anos a criança se torna capaz de realizar operações mentalmente e à partir dos 12 já pode criticar os sistemas sociais, propor novos códigos de conduta, discutir valores morais e chegar às próprias conclusões. Seu desenvolvimento posterior consistirá em ampliar conhecimentos mas não serão adquiridos novos modos de funcionamento mental.Por isso, em primeira análise, gosto de distinguir os valores dos representantes das gerações.

Os baby boomers (nascidos entre 1940 e 1960) eram, e ainda são,muito centrados no respeito. Isso tem reflexos diretos na comunicação. Essa geração aprendeu uma língua portuguesa diferente, muito mais formal, e sua educação primária foi feita através de livros densos, com forte influência religiosa, o que os tornou excessivamente exigentes com o jeito 'certo' de fazer as coisas. Sua inventividade era muito mais restrita ao físico, aquilo que podiam, ver, ouvir e tocar. Os valores principais residiam no trabalho pesado, na lealdade e na defesa da propriedade privada.
Já os nativos X (nascidos entre 1960 e 1980) viram a TV chegar às suas casas. Isso muda tudo. Foram criados em um ambiente de libertação sexual, de instabilidade econômica e de fortalecimento da era hiperconsumista. Ouviram de seus pais que precisavam assumir lideranças e lutaram com unhas e dentes pela liberdade de expressão. É a turma do "eu primeiro". Idealistas, visionários e hedonistas. Aqui começa uma forma de expressão mais madura, mais transparente, e uma fase na qual é possível, permitido e devido falar sobre o que se pensa. Essa é a geração que teve que redefinir os seus percursos profissionais e se adaptar a uma nova mobilidade que altera todo o modelo de negócios para o qual se prepararam. Eles viveram a transição do analógico para o digital, foram os precursores de uma mudança inimaginável até então. Eles deram o pontapé no futuro da comunicação. Aqui vemos uma aceleração na forma de se comunicar.
Enquanto o X é o imigrante digital, o Y é o nativo digital. Também conhecidos como Millennials (nascidos entre 1980 e 2000), os integrantes da geração Y já vieram inseridos em um cenário no qual a liberdade de expressão já foi conquistada e a exercitam de forma plena através das plataformas de redes sociais. Falam o que querem e como querem, e como são antiautoritaristas não estão preocupados com o julgamento dos pais ou chefes. São filhos de pais que, culpados por estarem demasiadamente ocupados com suas vidas laborais, os compensaram com bens materiais criando uma forte associação entre consumo e felicidade. Essa é a geração do pensamento inovador, da abstração e do conhecimento intuitivo. Aqui, mais do que aceleração percebemos mais um elemento típico dos Millennials: raciocinam e se comunicam utilizando informações completamente desestruturadas. Precisam ligar os pontos entre tudo o que está acontecendo no mundo.
O que muda o comportamento comunicativo são os novos modelos de pensamento. O pensamento contemporâneo prega a individualidade, a sustentabilidade, a reputação, a colaboração. Me pergunto até que ponto a nova economia revolucionou os valores essenciais dos seres humanos. Será que buscamos algo diferente de nossos avós? Será que o mote hippie – liberdade, paz e amor – não é a mesma coisa que individualidade, sustentabilidade e colaboração? Acho que as diferenças entre baby boomers,  geração Y e Millennials são um espectro da lenta evolução dos valores fundamentais. Hoje, os baby boomers vivem uma concepção totalmente renovada de terceira idade. Os clichês dos avós idosos de antigamente já não conversam com novos representantes de uma geração cheia de disposição, dinheiro para gastar e muita sabedoria. Os seniors de hoje estão se aproximando cada vez mais do comportamentos e valores dos filhos e netos.

A Publicidade teve papel fundamental na geração X. Na década de 80 uma marca ditava o que o consumidor iria usar. Hoje, a publicidade é menos impositiva. Por que?
Acredito que o justamente pelo fato dos Millennials estarem no controle da ferramenta mais importante para desmascarar produtos, marcas e ícones pessoais - a internet. Estamos entrando de cabeça na era da transparência e da reputação.
Segundo Charles Leadbeater, escritor e conselheiro do governo britânico, "no século 20 do hiperconsumismo éramos definidos por crédito, propaganda e pelas coisas que possuíamos. No século 21 do consumo colaborativo, seremos definidos pela reputação, pela comunidade e por aquilo que podemos acessar, pelo modo como compartilhamos e pelo que doamos.”
A publicidade continua exercendo um papel fundamental mas o apelo está mudando. Está se tornando mais sensorial, precisa estabelecer um diálogo entre o consumidor a marca. A máxima da "uma mentira contada mil vezes passa a ser uma verdade" está caindo por terra. Hoje, uma mentira contada ainda que só uma vez, se cair em domínio público, pode acabar com a reputação de uma empresa.

De que maneira as marcas conversam hoje com o seu público alvo?
A conversa precisa ser clara, madura e uma via de mão dupla. As marcas nunca dialogaram com o público como se veem obrigadas a fazer hoje. É a web 3.0. Não basta deixar que o público comente, critique, replique, é preciso dar resposta aos seus questionamentos.
É importante atentar para o fato de que vivemos um novo momento de difusão cultural. O planeta inteiro é público do mesmo cinema, dos mesmos discos, dos mesmos canais de TV. Uma gramática globalizada se estabelece. Palavras do filósofo Gilles Lipovetsky: " ganha espaço uma retórica simples, capaz de solicitar o menor esforço do público. Trata-se de se divertir, dar prazer, permitir uma evasão fácil e acessível a todos, sem a necessidade de formatação de nenhuma referência cultural particular e erudita", ou seja, quanto mais verdadeira e transparente for a conversa, melhor.

A Era da Informação foi concretizada com a geração Y. Qual o preço que eles pagam pelo excesso de informações? 
O escritor Umberto Eco, do alto de seus 80 anos, detectou que a internet é útil para o sábio mas perigosa para o ignorante porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória. E mais, afirma que o excesso de informação provoca amnésia.
Na internet não há hierarquia, o que vem ao encontro com a característica principal dos Millennials, que são totalmente antiautoritaristas. Na internet cada um conta a sua verdade, produz conteúdo sobre a sua vida e, em razão dos filtros que refinam e personalizam a informação nos buscadores, os usuários recebem informações restritas aos algoritmos definidos pelo estreito universo no qual navegam, sem questionar o que mais há além do Google. Eles tem dificuldade em sair da zona de conforto.
Por outro lado, o excesso de informação os torna altamente criativos e é preciso dar espaço para que eles exercitem a experimentação expressiva. É por isso que vemos um boom na procura de profissões mais inovadoras.Essa é também uma das razões pelas quais atualmente se fala tanto em design e economia criativa.
O livro ainda é o meio ideal para aprender. É tanta vida real na net que os Millennials são loucos por livros de ficção. Vejam  que interessante, a venda de obras sobre ciências humanas está em declínio enquanto o tema espiritualidade é a grande aposta das editoras. Tudo o que trata de debates "sobre si mesmo" também está em alta. Livros sobre conselhos psicológicos, desenvolvimento pessoal e pasmem, filosofia (aquela centrada no self), são um sucesso. Em tempos de extrema angústia, vida longa aos gurus do viver melhor.

Explique um pouco para a gente o que é a linguagem hiperbólica.
As mudanças na comunicação apontando para a experimentação expressiva começaram a acontecer à partir dos anos 90. Novos modelos performativos, a aceleração da vida, as plataformas de compartilhamento, a velocidade reacional trazida pelos smartphones. Tudo isso conduziu os jovens a uma comunicação exagerada, que objetiva prender a atenção e impressionar o interlocutor. Se trata de uma expressão até pessimista, muito ligada aos próprios conceitos do pós-modernismo: movimento crítico que fracassa em proporcionar uma visão positiva em relação àquilo que ataca.
Encontramos muitos exemplos de linguagem hiperbólica em vídeos no youtube nos quais os jovens criticam celebridades que não gostam, ou defendem seus ídolos favoritos de forma exagerada. Como meio de enfatizar as informações eles fazem uso uma linguagem chocante, politicamente incorreta, quase histérica. Tudo resultado do congestionamento de informações. E veja, a hipérbole é uma forma de linguagem muito usada na poesia. A linguagem hiperbólica dos jovens de hoje em dia é, de certa forma, poética. O que temos que entender é a poesia de nosso tempo. A linguagem hiperbólica está para a comunicação como o realismo histérico está para a arte contemporânea.

E qual é o comportamento da geração Z (não mostrada no vídeo) em relação à informação?
A geração Z (nascida após os anos 2000) está muito inserida em um universo lúdico. Amantes das fastfashion e dos games, são imediatistas e precisam ser constantemente desafiados. Eles pensam rápido e encontram saídas, superam seus desafios com destreza e em seguida querem mais, querem algo novo. Para essa geração vemos se afastar ainda mais da realidade o modelo educação/trabalho/tempo livre. São a geração dos teenpreneues– adolescentes à frente de empreendimentos de sucesso sem terem nem sequer terminado o segundo grau. Se divertem enquanto trabalham. São capazes de gerir negócios internacionais sem sair do quarto.
Filhotes da era da informação e experiência, são capazes de formatar a própria realidade e levarão adiante um novo estágio da comunicação, muito menos centrado em linguagem oral e muito mais sensorial. Esta é a geração que se comunicará através de leitura de sinais cerebrais e corporais (que pré-adolescente ainda não experimentou a tecnologia Kinect?). A ciência está a um passo de ler pensamentos. Hoje já existem máquinas de ressonância magnética que decodificam os sinais do cérebro, e os cientistas já estão montado alfabetos neurais. Já existe até um dispositivo portátil chamado iBrain – criado pela empresa NeuroVigil e financiada por Stanford e multinacionais farmacêuticas -  que acomodado sobre a cabeça detecta sinais elétricos do cérebro e procura associar a letras ou comandos de forma que uma pessoa emita informações diretamente através da mente, sem depender de movimentos. Em abril desse ano, o neurocientista Brian Pasley, da Universidade de Califórnia, publicou resultados de um experimento com um software que decodifica os impulsos elétricos do córtex e os transforma em sons*. Como sabemos que a evolução tecnológica é cada vez mais rápida, não duvido que dentro de 10 anos o tema já esteja bem desenvolvido.
Lindo mesmo é imaginar a geração que virá em seguida. Já é possível arriscar: 2020 – 2040 abrigará uma geração com uma capacidade impressionante de visualizar e criar, excêntrica, amplamente aberta e tão amante da liberdade que será muito difícil que outro padrão mental possa compartilhar com ela o mesmo espaço.

* Reconstructing speech from human auditory cortex.  Brian N. Pasley e outros. PLoSBiology. Publicado on-line em 31 de janeiro de 2012


Gostaria de agradecer imensamente a participação da jovem Paula Abbas nesse bate papo. Vocês viram quanta informação bacana ela trouxe? Agora só resta as gerações tentarem "se comunicar" melhor. Abaixo, um pouquinho do trabalho da Paula: 



Paula Foletto Abbas                                       
Pesquisadora de tendências, analista cultural e consultora para estratégias de criatividade e inovação. Pós-graduada em Marketing pela FAE Business School e Mestre em Direito Corporativo pela Universidade de Barcelona - Espanha. Tem cursos de extensão em psicanálise e antropologia e curso técnico em Design de Interiores. Coordenadora e professora do curso Coolhunting e Análise de Tendências da Lemon School e Centro Europeu. Atuou como consultora como foco em inovação e tendências para empresas como Nike, Natura, O Boticário, Jasmine. Sócia da Anima Trends, que, em italiano significa alma, busca a essência das motivações humanas para entender, em profundidade, o comportamento do consumidor pós-moderno e ajudar empresas, pessoas e cidades a inovar de forma inteligente.

p.s: para quem curte o trabalho da Box 1824: http://www.box1824.com.br/

Informações sobre as gerações no post Revolucione-se!




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