Marcadores

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Virundum

       Esses dias estava jogando conversa fora com um grupo de amigos sobre as músicas da década de 90. Alguns se lembraram do Prince, outros de George Michael e eu tirei do baú nada mais nada menos que Sinéad O´Connor. Ela ficou mundialmente conhecida por ser uma cantora de atitude e também por criar canções que marcaram época como Nothing Compares to you. Aí, alguém da mesa resolveu cantar o refrão dessa música  e saiu algo assim: "cause nothing complains, nothing complains to you" Hã? Acho que não, disse  eu. 




       Eu adoro essas confusões de letras de música. E como é fácil errá-las! Acho que a gente se sente meio "dono" da música e se apropria de uma letra feita por alguém geralmente mais talentoso que a gente. O maestro Antônio Carlos  Jobin ficaria espantado ao ver a livre interpretação que dei para letra de Estrada do Sol.  A música é de uma delicadeza ímpar, que deixa a alma da gente até mais leve. Mas, por anos, não conseguia fazer a concordância da primeira estrofe:




        Eu adorava cantar: "É de manhã, vem o sol mas os pingos de chuva que ontem caíram"Minha irmã mais nova (e também a mais estudiosa da casa) ficava chocada. Ela dizia: Lois, quem cai é a chuva e não os pingos. O meu argumento era: a chuva não cai sem os pingos, portanto, quem cai são os pingos e não a chuva, por isso a concordância no plural, "caíram". Um gramático mandaria me internar se ouvisse isso. 
      Existe até um nome para esses "erros" de letras de música, chamados popularmente de "Virundum". E sabe por que tem esse nome? Porque muita, mas muita gente mesmo erra o início do Hino Nacional: "Ouviram do Ipiranga às margens plácidas..."






        O termo Virundum teria sido criado pelo jornalista Paulo Francis, mas não há certezas sobre isso. O fato é que ouvidos inúmeros Virunduns por aí, todos os dias,  até onde não queremos. Quer um exemplo?
        Quando você passa uma informação a um amigo e ele não entende o que você diz, você acha que ele está tirando uma onda com você. Na verdade, o que ele fez foi interpretar os fatos do ponto de vista dele. Os Virunduns são mais do que a prova real de que as pessoas enxergam e absorvem somente aquilo que elas desejam. A letra da música está lá e é só a gente seguir, mas não!! Damos o nosso pitaco no que já foi construído. E, às vezes, isso pode nos trazer prejuízos. Na vida real quando alguém faz uma livre interpretação do nosso discurso e o utiliza como quiser, não é bom, né?.
       Portanto, para evitar os Virunduns indesejáveis, é preciso pensarmos como a pessoa que fala e a pessoa que escuta. Se é você quem fala, é preciso prestar atenção em uma série de informações que você está passando ao seu interlocutor. Pense:

1) Para quem você está falando?
2) De que maneira você está falando? A sua mensagem está clara?
3) Se você for claro, mas a pessoa ainda não entendeu, continue tentando com educação e paciência. Explique que o que você tem para falar é importante.
4) Se a mensagem que você tiver que passar for cabeluda, anote e estude tudo o que você for falar antes de falar e escolha o vocabulário mais adequado. Ninguém gosta de receber mensagens negativas. E o mais importante: fale tudo o que tiver que falar com tranquilidade e sem afetação. Às vezes temos conflitos a resolver e aí, qualquer Virundum no meio do caminho pode ser muito pior.
5)  Tem gente que entente tudo ao pé da letra. Nessa hora não adianta você fazer analogias ou metáforas. Isso só serve para o refrão da música. Na vida real, as pessoas precisam de mais praticidade.

Agora, se você é quem ouve, a regra é clara:

1) Escute. Achamos que o nosso discurso é o mais importante, mas nem sempre é! Pode não parecer, mas as pessoas tem coisas simples e importantes para nos falar, basta estarmos abertos para ouvir.
2) Formule um pensamento e só depois responda.
3) Se você não entendeu algo que alguém disse, pergunte novamente. Tem gente que não gosta de ser questionado, mas paciência. Se a pessoa não foi clara, o Virundum veio por parte dela e não de você. Além do mais, isso vai evitar que você faça um Virundum com o discurso alheio.

        Tirando essas situações acima, os Virunduns são ótimos. Eles nos trazem uma alegria meio envergonhada, mas muito espontânea. Chico Buarque não sabe, mas o meu maior Virundum é com a música Quem te viu, quem te vê. Eu simplesmente não acerto nenhuma frase. Chico, deixo essa para você!




p.s: gente, Lois é o meu apelido. 
p.s1: eu sei que tem gente que vai me pedir o clipe da Sinéad. Então, já me adiantando, lá vai:











0 comentários:

Postar um comentário